A tragédia começa com um regime sob comando dos militares: “Havia dois projetos políticos em disputa, um democrático, outro militarista e reacionário. As elites conservadoras conseguiram impor à sociedade seu modelo institucional militar e autoritário. As classes dirigentes queriam apenas a industrialização, mantendo a velha casca política autoritária”. Vem em seguida a Nova República, sob a hegemonia social-democrata: “O programa reconciliava revolucionários e reformistas. Com o sucesso eleitoral, os partidos políticos tornam-se agremiações puramente eleitoreiras, controlando várias organizações sindicais corporativistas e associações que gravitavam em torno deles. Partidos e sindicatos adaptaram-se às estruturas do antigo regime, em vez de tentar mudá-las. Há um fundo de desordem moral. Hiperinflação. Essa crise resultou de uma situação financeira degradada pelo endividamento do Estado. Enormes emissões de títulos do Tesouro. As promessas de uma vida melhor sob a social-democracia desaparecem como bolhas de sabão”. Embora evoquem claramente o regime militar de 1964 e as duas décadas de redemocratização brasileira, a partir de 1985, os textos acima referem-se na verdade à traumática transição da Alemanha imperial (1871-1918) para a República de Weimar (1919-1933). Foram retirados das obras “A revolução alemã: 1918-1923?, de I. Loureiro (2005), e “A República de Weimar”, de L. Richard (1988). O regime imperial alemão, como nosso regime militar, aguçara as contradições sociais. A República de Weimar, como a nossa Nova República, atolou-se no caos financeiro. O Tratado de Versalhes foi a herança maldita recebida pela República de Weimar. A explosão de gastos públicos em pleno combate à inflação criou nossa herança maldita: o endividamento em bola-de-neve. Prosseguem as lições da História. “Agir em nome de um grupo parece libertar as pessoas de restrições morais. O desejo de alcançar o maior poder para o grupo cria um código condenável. Sua máxima de que os fins justificam os meios é na verdade uma negação dos princípios morais. Regra suprema na ética coletivista, não há nada que o militante não esteja preparado para fazer em nome do ‘bem comum’.” Estamos falando de mensalões e sanguessugas? Ou da inesperada e degradante troca de acusações que contaminou o mundo artístico na última semana? “Os conservadores não se opõem à coerção ou ao poder arbitrário, desde que usados para os fins que julgam válidos. Os socialistas também não se preocupam com o problema de limitar os poderes do governo, e sim com quem irá exercê-los.” Os “conservadores hipócritas” de ontem são semelhantes aos “socialistas hipócritas” de hoje? Embora pertinentes ao momento atual, estas são reflexões de um liberal-democrata, o austríaco Friedrich von Hayek, em “O caminho da servidão” (1944) e “Fundamentos da liberdade” (1960), sobre um problema fundamental: a questão no Brasil de hoje não deveria ser apenas como chegar ao poder, mas essencialmente em que grau se exerce o poder, a intensidade da coerção do governo sobre os indivíduos. A classe artística tem sabidamente coração macio. Os meus leitores do GLOBO e da revista Época sabem agora que há mais um sintoma do excesso de gastos públicos: artistas de coração duro e miolo mole.

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