O jornalismo brasileiro tem a mania de agir como se a crítica fosse o único caminho capaz de afirmar independência de posições. Não é. Em certas circunstâncias, a defesa de determinados pontos de vista exige muito mais coragem do que é possível imaginar diante dos que sempre insistem em apontar o dedo e dizer que isso está errado e aquilo está pior ainda.

É o caso, por exemplo, da ação em curso contra o ditador Muamar Kadafi, na Líbia. Enquanto se valia de mercenários para massacrar civis mal armados, que apelaram para a violência como único recurso capaz de livrá-los da tirania, Kadafi chegou a ser apontado como o sanguinário que tentava escravizar um povo inteiro.

Bastou a ONU ordenar que se impedisse o massacre para que a coalizão militar liderada pelos Estados Unidos passasse a ter suas ações questionadas. Ontem, a imprensa divulgou com destaque que o tirano teria “convocado” a população para que se dirigisse a Trípoli e defendesse o governo.

Ou seja: Kadafi “convocou” ou, provavelmente, conduziu à força até a capital os escudos humanos que receberão os tiros. Depois, acusará as forças ocidentais de massacrá-los.

Está nítido que o ditador tenta manipular a opinião pública internacional – que sempre repudiará o massacre de civis. Age, assim, exatamente como os terroristas do Hamas, que atacam com mísseis armados em telhados de escolas e, quando contra-atacados, exibem na TV corpos mutilados de criancinhas.

Sabem que a cena impressionará o Ocidente – e, diante dela, a vítima do primeiro ataque passará a ser vista como algoz.

O gesto é tão velho quanto covarde, mas sempre funciona com incautos. No caso da Líbia, vale elogiar a postura dos Estados Unidos. Desta vez, fizeram tudo certo. Esperaram que as Nações Unidas aprovassem a ação para só depois se mover. Muita gente ainda perderá a vida no conflito, o que é lamentável. Mas quantas ainda morreriam sob Kadafi se nada fosse feito?

Por questão de princípio, qualquer democracia sempre merece mais respeito e crédito do que qualquer ditadura.

Não há exceção para essa regra: vale para Líbia, Irã, Venezuela ou qualquer outro que se apoie na democracia alheia (onde a opinião pública tem grande poder de pressão) para permanecer ditadores e atrozes.

Fonte: Brasil Econômico, 22/03/2011

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