Cotas: Belas intenções. Resultados perversos

Antes que o leitor fique indignado e pule o artigo, por favor leia.

Sou a favor de políticas compensatórias para várias corrigir várias iniqüidade, sejam elas de passado remoto ou recente.

Governos, em geral tomam as piores decisões porque, quando o fazem, pensam a curto prazo, não analisam as consequências de médio e longo prazos, nem olham para os problemas com lentes do tipo “grande angular,” para ver quem vai de fato ser beneficiado ou prejudicado. Isso nos ensinou Henry Hazlitt em “Economia em uma lição”.

Tomam decisões ruins, também porque como o governo e os políticos nada produzem, apenas gastam o dinheiro dos outros (nosso), não importam nas decisões dele, nem o preço das decisões, nem a qualidade dos resultados da decisão. Isso nos ensinou Milton Friedman. A rigor, o único resultado que importa para os políticos é o resultado das próximas eleições. Para os burocratas que implementam as políticas só importam garantir o emprego e ter mais verbas.

Agora vai o desafio à sua criatividade. Depois que você terminar de ler o artigo, por favor me mande suas sugestões para resolver o problema e evitar os resultados perversos que vou apontar a seguir.

As universidades brasileiras estatais (vamos parar de chamá-las de públicas, por favor) até recentemente só admitiam alunos de classes média e alta, porque negros e pobres não tinham tido um ensino primário e secundário de boa qualidade.

O racismo e a discriminação social eram perfeitos: cortavam pobres, negros, índios, etc., na entrada da escola secundária. Como uma vez me disse um coronel negro do exército: “O racismo brasileiro é perfeito. Ele não precisa de lei. Corta na raiz.”

Pois bem, apesar disso tudo muitos negros e pobres foram, ao longo de muitas décadas e muito sacrifício, conseguindo passar do corte pela raiz e chegaram à porta da universidade, que estava, social e educacionalmente, fechada através do regime de vestibular (que justficava sua razão de existir porque havia mais candidatos do que vagas).

Agora vamos para a lente grande angular e mais complicada: quando havia poucos automóveis no Brasil (e poucas motos), o transporte público dos bairros ricos e de classe média era razoavelmente bom. O dos bairros pobres era ruim.

As escolas públicas primárias e secundárias sofriam do mesmo mal, se suas clientelas, por causa da localização, eram ricas e de classe média as escolas eram boas. Se eram para pobres as escolas eram ruins.

Virtudes privadas, vícios públicos: ainda que muitas pessoas limpa e honestamente se declarassem não racistas e não discriminatórias contra os pobres, no coletivo elas agiam como racistas e discriminadoras.

Tudo o que é governamental e é para pobre é abandonado e torna-se ruim

Como as sociedades politicamente democráticas que deixam o capitalismo funcionar, mesmo que só um pouco, como é o caso do Brasil, gradualmente, pobres e negros foram conseguindo passar da raiz, chegaram ao fim de seus cursos nas escolas secundárias. Que aconteceu? Começaram a entrar para as universidades. Primeiro, alguns conseguiam passar no vestibular. Depois, graças à política de cotas, passaram a entrar para as universidades. Resultado: os filhos dos ricos e da classe média começaram a abandonar as faculdades públicas. Que, como “viraram coisas para pobre” começaram a ser abandonadas não só pela clientela, mas também pelos governos.

O resultado financeiro para os ricos foi significativo. Antes não precisavam preocupar-se com pobres e negros na universidades estatais que eram gratuitas. Quando passaram a querer soluções educacionais de não compartilhamento nas universidades, passaram a ter que pagar pelo ensino universitário privado. Foi uma grande pancada numa das políticas mais regressivas dos governos brasileiros que garantiam ensino universitário grátis desde que o cidadão passasse no vestibular. Como passaram a entrar pessoas que não eram necessariamente “desejáveis,” do ponto de vista dos alunos de classes média e alta, estes começaram a buscar soluções nas universidades privadas e pagas.

Governos são maus, sempre. Não importa que governantes sejam bons individualmente. Como grupo, eles são maus porque não pensam nos resultados dos seus atos. Resultado, as universidades privadas começaram seletivamente a melhorar e as universidades públicas começaram a piorar (nem todas, justiça seja feita).

Por que aconteceu isso? Porque tudo o que é governamental e é para pobre é abandonado e torna-se ruim. Este é um fato da vida.

Com o transporte público aconteceu a mesma coisa. Com o crescimento da indústria automobilística o transporte público os ricos e a classe média passaram a usar o carro e o transporte público, como era para pobre piorou, dramaticamente.

E não há razão para imaginar que nas universidades vai ser diferente. A discriminação começa com os professores, que apesar de se dizerem ‘progressistas” não querem dar aulas para pobres e negros porque dizem que o rendimento não é o mesmo.

No caso das novas filiais de universidades estatais que estão sendo abertas em bairros pobres, as vagas de professores estão sendo preenchidas por professores novos e recém admitidos, porque os velhos professores preferem ficar encastelados nas suas confortáveis posições, nas sedes antigas,

Os pobres moram em bairros diferentes dos ricos. Em São Paulo e Brasília, isso é absolutamente claro. No Rio, os morros e as favelas cuidaram da exceção à regra. Pobres e ricos moram no mesmo bairro (mas em espaços diferentes).

Olhe o rabo da porca torcendo novamente: os professores antigos não querem sair de seus bairros confortáveis e engarrafar-se por horas a fio para chegar aos alunos em campi mais remotos e em zonas mais pobres. Então começam as crueldades da organização social. Como estão entrando muitos pobres e negros nas universidades estatais, ainda que eles estejam se saindo bem academicamente, estão incomdando a classe média e os ricos, mas têm mais dificuldades de acesso aos professores mais experientes porque estes preferiram evitar o contato com pobres e negros (porque os pobres e negros tendem a ir para os novos campi em áreas de baixa renda, porque é mais perto de onde moram os pobres).

Outra novidade: Empresas da área educacional estão abrindo mais e mais faculdades e universidades para atender a uma demanda crescente e naturalmente está concorrendo uma seleção econômica. Algumas destas estão melhorando sua qualidade (que desmente o mito brasileiro que faculdade particular tem que ser ruim) para atender aos ricos e à classe média que querem uma educação melhor e que “apostam”que a educação junto com os pobres e negros não será tão boa.

As pessoas são malvadas por fazerem isso? Não. Individualmente são boas, mas no agregado agem de maneira socialmente cruel.

Brasília, planejada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer é o maior exemplo brasileiro da falência da engenharia social de esquerda.

Já na construção criaram cotas. Nas superquadras morariam, juntos, ricos, médios e pobres. Os prédios foram construídos e distribuídos com este critério e para isso. Os prédios dos pobres eram menores, mais mal acabados, mais baixos e sem elevador. Os dos médios e dos ricos eram o inverso: maiores, mais bem acabados e com elevadores.

Em Brasília houve, no início, uma inversão da maldade intrínseca do projeto (de autoria de arquitetos e planejadores “de esquerda”). O pobres, rapidamente, perceberam que seus apartamentos, apesar de menores e piores tinham um valor maior por serem vizinhos imediatos dos ricos, passaram os apartamentos nos cobres e foram morar em casas mais confortáveis, mais longe da cidade. Ganharam no dinheiro, mas perderam tempo e conforto no transporte público escasso e ruim. Mas foi uma escolha deles.

Assim meu caro leitor, reafirmo que sou a favor de políticas compensatórias, só não sei se as cotas são a solução.

Apesar de não me cansar de dizer que devemos sempre ter medo de pessoas bem intencionadas, sobretudo quando em grandes grupos e, mais ainda, quando no governo, faço um apelo para mais ideias, criativas sobre o tema. Acredito na sabedoria de muitas pessoas bem intencionadas – fora do governo – para ajudar-me a encaminhar soluções para o problema. Não prometo resultados. Mas com mais ideias, talvez me torne mais sábio.

Fonte: OrdemLivre.org

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17 comments

  1. Marcelo de Souza

    Texto integralmente baseados em achismos.

    Pesquise fazendo o favor informações por exemplo da UnB e Uerj, universidade que mais tempo implementam cotas e fazem pesquisas internas sobre o rendimento dos alunos, atestando muitas vezes rendimento superior ao de alunos não cotistas.

    O autor do texto se insurge como bom liberal-conservador contra o “Estado”, o “Público”, o “Governo”…pois bem, mas como bom liberal-conservador esquece é claro de atestar o óbvio: o estatal-público etc é ocupado por interesses privados e grupos que desvirtuam a função pública. E isso não é uma dinamica nova, como se tudo fosse culpa do pt, psdb etc.

    Enfim, quem privatizou o estado para as oligarquias e sucateou o ensino publico fundamental e médio foi a ditadura militar brasileira, apoiada pelos liberais-conservadores que hoje se insurgem contra as minimas soluções para o problema. Haja hipocrisia…

  2. Tatiana

    Concordo que as cotas não são a solução mais adequada para o problema. Parecem boas nos primeiros anos, mas a longo prazo terão o efeito inverso.
    Com o tempo a qualidade do ensino universitário será monopólio das privadas. E quanto melhor, mais cara, como hoje são as mensalidades da FGV, impagáveis para a maioria da população.
    Ou seja, educação de qualidade cada dia mais será privilégio das elites econômicas. Ou daqueles poucos que conseguirão entrar em programas de bolsas.
    Uma pena que as pessoas não estejam enxergando que a única solução para isso é promover educação pública de qualidade para todos, sem distinção, desde a base.
    Escrevi sobre isso e quase fui linchada…
    Comentários como esse do Marcelo acima, que acham que apenas a via que a “esquerda” aponta como é a correta e todos os demais são “inimigos do povo”, sem notar que ela também tem seus interesses, e cada vez mais se aliam a elites, em alianças de moral duvidosa.

  3. antonio sergio

    Perdoe-me o autor, mas suas fontes estão completamente erradas. Os alunos “ricos” não estão abandonando as escolas “estatais”, as cotas é que estão impedindo-os de serem admitidos por seus méritos. Os professores continuam trabalhando nas escolas, não importa o bairro onde estejam localizadas e nunca vi racismo por parte deles durante suas aulas. No resto do artigo o senhor confunde e inverte as coisas. É o rabo abanando o cachorro. Além disso o aproveitamento dos alunos cotistas só se iguala ao dos não cotistas em ciências humanas (onde não se usa praticamente matemática, física, química etc). Pesquise mais e o senhor vai entender o absurdo das cotas raciais.

  4. willian olivera

    e injusto dar cotas a pessoas isto é uma forma de preconceito contra índios e negros pois é como dizerem que são piores dos outros que são incapazes de conseguir passar sem uma cota eles são totalmente capazes e iguais as outras pessoas logo devem ter o mesmo tratamento fazer o mesmo vestibular e passar sem uma cota como muitas pessoas negras fazem e mostram que tem mesma ou até melhor capacidade do que uma pessoa que e rica e/ou branca

  5. ELZINA TEIXEIRA

    É injusto dar cotas a pessoas, é uma forma sim de preconceito
    acota e´uma forma de afirmar a incapacidade do ser humano independente de raça cor ou sexo

  6. ELZINA TEIXEIRA

    não é correto cotas na minha opinião é o mesmo que afirmar a
    incapacidade do individuo.

  7. thalía brum

    Todos nós temos direito a fazer as coisas que gostamos.
    Podemos ser diferentes por fora mas somos todos iguais por dentro!!!
    “não importa a raça nem a cor que tu és ama todos como irmãos e faz o bem !!!

  8. julio cesar

    APENAS, BASTA ANALISAR OS FATOS, SENDO QUE, NINGUEM É IGUAL. NA MINHA OPNIÃO. POREM ACREDITO QUE TUDO DEVE SER JUSTO. SE ESTUDA E APRENDE DEVE SER APROVADO, POIS TUDO É CONSEQUENCIA DE UM ATO. NAO DEVE SER DIFERENCIADO POR CLASSE SOCIAL, ETNIAS, CREDO RELIGIOSO, POR APARENCIA OU NATURALIDADE…
    HIPÓCRITA É AQUELE QUE FAZ ACEPÇÃO DE PESSOAS…

    SEMPRE RESPEITE PARA SER RESPEITADO.
    xD

  9. pedro

    acho que todos tem direitos iguais não deve dar prioridade aos Índios negros ou deficiente

  10. thalía brum

    SOMOS LIVRES TEMOS OS MESMOS DIREITOS QUE OS RICOS!
    TODOS SOMOS IGUAIS SÓ SOMOS DIFERENTES POR FORA!!!
    “não importa a raça e nem a cor que tu és ama todos como irmãos e faz o bem”

    EM FIM TEMOS QUE RESPEITAR PARA SERMOS RESPEITADOS!!!

  11. Mariia Eduarda

    Concordo..a coor da sua pele não importa somos humanos e temos os direitos de estudar e ser feliz igual o rico..e tem muito pobre mais esforçado que o rico mais inteligente mesmo que não estuda em escola de media e alta classe..

  12. maria eduarda

    em fim todos temos devemos respeitar para sermos respeitados

  13. gabriela

    somos livres temos os memos
    direitos que os ricos!!!
    porque todos somos iguais e eu so a favor da politica !!!

  14. gabriela

    viva a politica!!!!!

  15. Murilo

    Uma solução válida é aumentar a rigidez dos órgãos reguladores de profissionais liberais, tais como a OAB, CREA, CRM, e outros. Para que não somente os profissionais liberais mas também os outros profissionais tenham que se esforçar para serem bons profissionais. Assim a mão de obra poderá ser mais valorizada e o funil será mais justo.

  16. Lucas de Freitas

    “Todos são iguais, mas uns são mais ‘iguais’ que os outros”!

  17. Lucas de Freitas

    Realmente as cotas que têm sido implementadas estão muito aquém do esperado, sugiro que para uma maior eficácia desta política sejam também criadas cotas na pós-graduação, nos concursos públicos, na carreira diplomática, enfim somente por meio de uma ampla promoção da inclusão social dos grupos historicamente excluídos.

    Sinceramente professor Alexandre não duvido de sua capacidade cognitiva e sei que pela sua (de?)formação nos centros de excelência em Chicago o senhor não se tornou míope frente aos problemas sócio-históricos de seu país.
    Como formador de opinião certamente o senhor compreende cada palavra do que escreve, mas me parece que pela ânsia de fazer parte de um grupo político o senhor se esquece de seu dever como cidadão em prol da minimização das desigualdades sociais, não digo equidade mas a diminuição das mazelas sociais fariam com que as pessoas de seu grupo político não precisassem se preocupar tanto com sequestros relâmpagos e suas nefastas consequências.