Alexandre Schwartsman

Estamos nos encaminhando para um crescimento muito baixo em 2012, pouco acima de 1,5%, de acordo com a pesquisa Focus -menos da metade do que se projetava no começo do ano (3,3%).

Mesmo com a frustração das expectativas de crescimento, porém, os analistas consultados pelo BC (Banco Central) insistem em previsões de expansão da ordem de 4%, tanto para 2013 quanto para 2014, apenas modestamente inferiores às divulgadas no início do ano (em torno de 4,5%).

A persistência dessas projeções sugere haver certa crença entre os economistas acerca da capacidade de crescimento sustentado do país, isto é, do nível de expansão que seria consistente com a inflação ao redor da meta.

No jargão da profissão, esse seria o ritmo de expansão potencial do PIB, ao qual se espera que, uma vez superados os obstáculos, o crescimento tenderia a retornar.

O motivo para essa convicção parece claro: o aumento médio do PIB foi próximo a 4,5% ao ano entre 2004 e o final de 2010. Em horizontes distintos, esse número se altera, mas permanece teimosamente no intervalo de 4% a 4,5% ao ano, reforçando a crença de que o patamar de crescimento potencial do país estaria nessa vizinhança.

É bom que eu diga, aliás, que essa também era a minha visão. No entanto, ao examinar com mais cuidado o que vem acontecendo no mercado de trabalho, minha percepção foi bastante abalada.

Para entender meu desconforto, considere o próprio conceito do PIB potencial. Trata-se de um nível de produção que, por definição, não pressiona a inflação nem para baixo nem para cima.

Caso o PIB supere esse nível ideal, o desemprego cairia abaixo do valor consistente com aumentos salariais alinhados à expansão da produtividade, gerando pressões inflacionárias.

Caso contrário, o desemprego subiria, fazendo com que salários crescessem mais lentamente, e que, portanto, a inflação se reduzisse relativamente à meta.

A definição do nível de produto potencial tem implicações para seu ritmo de expansão.

O modelo de crescimento brasileiro se baseou mais na incorporação de mão de obra desempregada

Por construção, se a economia partir do próprio nível de PIB potencial, o produto tem que se expandir a uma cadência que mantenha a taxa de desemprego constante. Isto é, em linha com o aumento populacional, assim como o crescimento do produto por trabalhador.

Caso, porém, a economia começasse a crescer em seguida a uma recessão, partindo de uma taxa de desemprego que estivesse muito acima do nível consistente com a inflação na meta, o PIB poderia, por certo tempo, crescer acima do seu ritmo potencial, reduzindo enquanto isso a taxa de desemprego.

Essa última situação parece descrever o Brasil no período pós-2003. Uma vez superada a crise de 2002, a economia se expandiu ao ritmo de 4% a 4,5% ao ano, porém, o fez reduzindo sistematicamente (ainda bem!) a taxa de desemprego -de valores próximos a 13% em meados de 2003 para níveis ao redor de 5,5% em meados de 2012.

Esse desenvolvimento indica, contudo, que tal velocidade de crescimento deve ter superado o ritmo potencial, aquele que manteria o desemprego inalterado.

Posto de outra forma, o crescimento potencial deve ser bastante inferior a 4% ao ano.

Se isso é verdade, o que ocorreria caso o ritmo de expansão do PIB saia dos patamares medíocres em que se encontra para o ritmo de 4% (ou mais) esperado pelo mercado e prometido pelo governo?

Provavelmente o desemprego continuaria a cair, chegando a algo como 3,5% no final do ano que vem e próximo a 2% no final de 2014. Com isso, os salários, que já crescem acima da produtividade, se acelerariam ainda mais, comprometendo de vez o cenário inflacionário.

A verdade é que o nosso modelo de crescimento se baseou mais na incorporação de mão de obra desempregada ao processo produtivo do que no aumento do produto por trabalhador.

Funcionou bem enquanto o desemprego era elevado, mas os limites que se avizinham sugerem que já passamos do momento de explorar a segunda alternativa.

Fonte: Folha de S. Paulo, 09/10/2012

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