Crescimento do PIB em revisão

Divulgado o PIB do segundo trimestre, na primeira semana de setembro, é importante uma revisão sobre nossas estimativas de crescimento para este ano, até então de 6,8%, e o próximo, em torno de 4,5%.

O crescimento acima do esperado no segundo trimestre – 1,2% contra o anterior e 8,8% contra o mesmo do ano passado –, acabou acendendo uma luz amarela para os mercados de que a economia deve retomar um crescimento mais intenso neste segundo semestre, mesmo que num patamar mais fraco do que no primeiro (na média).

 Na opinião de um ex-diretor do Bacen, José Julio Senna, “o país já se encontra bem perto da velocidade potencial, o que abre espaço para o surgimento de novos riscos inflacionários”. Lembremos que o PIB crescendo acima do seu crescimento potencial, em torno de 4,5%, tende a gerar pressões inflacionárias. Com o crescimento de 5,1% em 12 meses, esta sinalização acaba inevitável.

Com isto, o mercado de “juro longo” passou a sinalizar uma taxa mais alta para 2011. Este Economista-chefe visualiza uma taxa entre 11% e 12%. Isto se torna ainda mais factível quando se observa a leniência do governo na gestão das contas públicas. Foram anunciados cortes de gastos até o final do ano, diante da forte possibilidade do resultado primário, antes anunciado, de 3,3% do PIB, não ser atingido. Lembremos que o resultado de junho, em 12 meses, fechou em 2,03% em 12 meses, bem distante, portanto, desta meta. Por outro lado, este ano de 2010 já parece dado, não fazendo sentido uma intervenção do Bacen neste período.

 Façamos, então, uma análise no desempenho do PIB e suas perspectivas para este ano e o próximo:

O forte crescimento do primeiro trimestre acabou considerado atípico, por sinalizar um movimento de antecipação de consumo, gerado pela proximidade do fim das isenções fiscais para bens duráveis, dentre outros fatores. Com isto, o crescimento acabou em 2,7% contra o trimestre anterior e 9% contra o mesmo do ano passado;
 

Neste segundo trimestre de 2010, o esperado era um movimento de acomodação (uma parada técnica), diante do forte desempenho do período anterior e a base de comparação mais alta, mas o crescimento surpreendeu. Na verdade, houve um suave recuo na intensidade do ritmo de crescimento do primeiro trimestre, um ajuste de estoques, mesmo com o crescimento ainda forte. Esperava-se um crescimento de 0,7% contra o trimestre anterior, mas este acabou surpreendendo, 1,2%, além de 8,8% contra o mesmo trimestre do ano passado, 8,9% no semestre e 5,1% no acumulado em 12 meses; 
 

No primeiro semestre, o crescimento foi de 8,9%, maior patamar em 14 anos. Este desempenho foi (e vem sendo) puxado pela demanda interna, com o consumo privado em bom patamar, beneficiado pelos ganhos de renda real e crédito, assim como os investimentos, o que sinaliza a confiança dos agentes no futuro da economia, não importa o que aconteça no cenário político. Não devemos esquecer o consumo do governo, ainda mais quando se tem eleições presidenciais neste ano;

A demanda doméstica cresceu 12,4%, superando o trimestre anterior (11,9%), mas a externa fechou negativa em 3,3%. Ou seja, pela “teoria da absorção interna”, a demanda doméstica acima da produção, obrigou o país a importar mais, com estes avançando 4,4% contra o trimestre anterior e 38,8% contra o mesmo do ano passado. Isto significaria carência de poupança interna, o que vem provocando este desequilíbrio externo. Mesmo assim, a poupança avançou bem, passando de 16,1% para 18,% em um ano. Uma boa notícia é que boa parte deste desequilíbrio veio das importações de máquinas e equipamentos, importantes na composição da nossa taxa de investimento, fechada no semestre em 17,9% do PIB. Não deixa de ser um bom sinal sobre a sustentabilidade do nosso crescimento;
 

Na demanda doméstica, o consumo privado perdeu força e as despesas do governo se mantiveram fortes. O primeiro passou de 1,4% para 0,8%, enquanto que o segundo, de 0,8% para 2,1%. Como dito acima, isto acabou elevando, na margem, a taxa de poupança, a 18,1%, acima do registrado no mesmo período de 2009 (16,1%). Contra o trimestre do ano passado, o crescimento dos gastos do governo avançou 5,1%, com os impostos avançando 12,6%, em decorrência do bom desempenho da indústria e dos impostos sobre importações;

Houve também ajuste de estoques, com a queima destes, formados e acumulados no início do ano. Esta formação de estoques representou 3% do PIB.
 

DESEMPENHO DO PIB EM QUATRO TRIMESTRES

Neste desempenho do PIB, o “efeito carregamento” (carry over) acabou tendo grande influência, o que nos levaria a projetar um crescimento em torno de 7% neste ano, mesmo com a economia ficasse parada neste segundo semestre. Por outro lado, tendo-se em vista uma economia mais aquecida neste período, com as festas de fim de ano, os reajustes reais nos vários dissídios, o reajuste para os aposentados e o pagamento do 13º salário, é provável que a economia dê uma aquecida neste final do ano, para fechar o PIB com crescimento em torno de 7,4%;
 

No desempenho do segundo trimestre, indústria e investimentos tiveram papel preponderante, sinal de que a confiança dos empresários não foi tão afetada. Os investimentos avançaram 26,5% contra o segundo trimestre do ano passado, superando o período anterior (26,0%), responsáveis pela metade da expansão do PIB no período. Todos os setores se destacaram – produção interna, importação de máquinas e construção civil –, mas este último acabou com recorde no período. Cresceu 16,4% contra o mesmo trimestre do ano passado, impulsionado pelo crédito e pelas contratações de novos trabalhadores. Lembremos que este setor é intensivo em mão-de-obra. Ressaltemos, por outro lado, a base de comparação favorável, já que no mesmo período do ano passado, este setor mergulhou 16%;

Por fim, para o terceiro e quarto trimestre, com a base de comparação mais alta, estamos prevendo um crescimento entre 0,6% e 0,8%, até porque os indicadores da indústria e comércio mostram um bom volume de encomenda, sazonalmente mais intensas entre setembro e novembro. Isto nos dá um bom final de ano para a atividade econômica neste Natal. É possível que tenhamos um crescimento sustentável neste ano, impulsionado consumo privado, do governo e investimentos, sem esquecer o impacto amortecedor das importações;
 

Em suma, o crescimento da economia acabou um pouco mais intenso do que o antes previsto pelos agentes. Acabou um pouco acima do potencial do país, qual seja, um crescimento equilibrado sem pressões inflacionários, em torno de 4,5%. Foi de 5,1% no acumulado em quatro trimestres e 8,9% no semestre. É possível alguma desaceleração no segundo semestre, até porque a base de comparação deve ficar bem mais alta. Consideramos, então, que: (i) o risco de uma atividade econômica mais aquecida no quarto trimestre não deve ser descartado, já que o crédito continua intenso, devendo passar de 50% do PIB nos próximos meses, assim com os ganhos de renda e emprego; e (ii) a base de comparação mais alta e a baixa capacidade de endividamento das famílias deve amortecer um pouco este crescimento. Com isto, prevemos para este ano uma expansão revisada de 7,4%, recuando a 4,8% em 2011.

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