Crescimento e poupança

Foi o PIB mais alto em 24 anos. Em 1986, havia o Plano Cruzado para impulsionar o crescimento. Desta vez, não houve planos mirabolantes, apenas uma condução mais agressiva das políticas monetária e fiscal.

Mas, da mesma forma que nos perguntávamos na década de 80 sobre a sustentabilidade desse crescimento, novamente essa discussão permanece. Ainda temos dificuldade em aumentar o patamar do PIB para números como os 7,5% de 2010. Há inúmeras razões para isso.

Primeiro, o mais velho dos problemas, é a taxa de investimento ainda baixa, em torno de 20% do PIB. Em países maduros, já com elevado estoque de capital, é natural que a taxa de investimento seja baixa, até porque o crescimento padrão desses países também tende a ser menor.

Exemplo maior é os EUA, que possuem uma taxa de investimento abaixo de 15% para manter um crescimento potencial de 2,5% ao ano, suficiente para sua economia.

Economias jovens precisam aumentar seu estoque de capital, levando a taxas de crescimento mais fortes, como a China. Hoje queremos crescer a taxas de chinesas com padrão de investimento americano. Não funciona e gera mais inflação.

O próprio padrão de crescimento escolhido também repercute na condição de sustentabilidade. Um crescimento com grande peso em consumo e menos em investimento pode levar a mais pressões inflacionárias, já que não se adiciona capacidade produtiva de forma adequada na economia, fazendo com que o banco central tenha que ser mais cuidadoso na política monetária.

É um pouco do dilema chinês hoje, que busca mudar seu padrão de crescimento baseado mais em consumo e menos em investimento e exportação.

Há também a capacidade de investimento tecnológico e em educação, duas áreas em que a China tem se destacado e o Brasil pouco avançado. A Ásia virou atrator de estudantes, até para áreas nobres da administração, como MBAs, e há muito tempo passou os EUA em patentes aprovadas.

Devemos lembrar que o Brasil também não é mais um país tão jovem economicamente. Já passamos pelo processo de urbanização mais intenso das décadas de 50 a 70. Processo esse que ajuda em muito o crescimento da oferta de mão de obra na China, o que tem permitido certo controle dos salários.

Esse padrão está mudando, já que a política de um filho por casal levou a uma queda na taxa de natalidade naquele país e hoje significa que a tendência da oferta de trabalho é crescer menos nos próximos anos.

No Brasil, além do grosso da população já estar nas cidades, também vemos desde 2006 uma queda na quantidade de pessoas entre 18 e 24 anos ao mesmo tempo que a demanda por elas cresce. Ou seja, os salários tendem a aumentar num ritmo acima do potencial.

É verdade que ainda passamos pelo bônus demográfico, mas ele termina em cerca de dez anos, sem termos aproveitado devidamente.

Com isso, crescer sistematicamente 7,5% não será possível, talvez nem no longo prazo. Mas se conseguirmos fazer o dever de casa, principalmente na parte fiscal, poderemos ter espaço para um PIB de 5%, o que será de bom tamanho.

Fonte: Brasil Econômico, 09/03/2011

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