Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Criativos demais

Em poucos países do mundo economistas são tão criativos como no Brasil. Por isso mesmo, talvez, sejamos especialmente incompetentes na gestão econômica. Quem acompanha nossa história assistiu a sucessivos experimentos de laboratório destinados a controlar as principais variáveis econômicas: fórmulas matemáticas para as correções monetária, cambial e de salários, prefixação das variações do câmbio e da correção monetária, congelamento de preços e “tablitas”, sequestro da poupança, bandas cambiais e sua forma suprema de pajelança: a banda diagonal endógena, a “nova matriz econômica”, de Mantega e Rousseff etc. etc.

O encaminhamento de soluções deve ser conduzido por um governo dotado de plena legitimidade e apoio popular

A exitosa criação da URV (inspirada no rentenmark alemão e adaptada por Gustavo Franco), que viabilizou o Plano Real, fica como a exceção que confirma a regra.

Na área microeconômica também não ficamos muito atrás na coleção de barbeiragens. Os exemplos maiores estão no estrago recente causado em todo o setor de petróleo e energia pelas políticas implementadas por nossos últimos governantes e na nunca esquecida “reserva de mercado para a informática”, do governo Geisel.

Agora, o tema da moda é a dominância fiscal, que ocorre quando a dívida pública atinge uma dinâmica tão perversa que passa a atar as mãos do Banco Central na manipulação dos juros para o combate à inflação. Afinal, juros altos são despesa para o governo e agravam o quadro para a evolução do déficit e da dívida pública.

Pois bem, constatado que estamos sofrendo de “dominância fiscal”, nossos economistas começam a exercitar a profícua criatividade que os caracteriza. Reinstalação de bandas cambiais, afrouxamento das metas inflacionárias, redução dos juros “na marra” conjugada a restrições nos fluxos financeiros etc. voltam a frequentar nossos laboratórios, em total descompasso com o enfrentamento das causas reais e primárias de nossos problemas.

Precisamos deixar de lado os expedientes e passar a focar na situação crítica do Estado, este sim um ente que, descontrolado, é a razão de nossos males maiores. Nada do que se cogita nos gabinetes será solução se o governo não conseguir passar para a sociedade confiança em instituições sólidas e num quadro dinâmico de estabilidade fiscal.

É certo que o encaminhamento de soluções deve ser conduzido por um governo dotado de plena legitimidade e apoio popular, o que talvez não tenhamos, no momento. Mas as discussões devem focar na limitação legal das despesas e do endividamento público. E numa reforma drástica da Previdência. Pois é no controle do Estado, e não no controle dos mercados, que encontraremos o caminho para o progresso sustentável.

Fonte: O Globo, 18/10/2015.

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