Autor Convidado: Carlos Alberto Di Franco
Cinco jovens de classe média roubaram e agrediram a socos e pontapés a empregada doméstica Sirley Dias de Carvalho Pinto, de 32 anos, que estava num ponto de ônibus na Barra da Tijuca, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro. O crime ocorreu por volta das 5 horas. Sirley havia saído cedo da casa da patroa para ir ao médico. Segundo ela, um carro preto, com cinco ocupantes, parou a cem metros do ponto. “Eles vieram em minha direção, arrancaram a bolsa e começaram a bater e xingar. Xingaram muito.”

Um dos três agressores que estão presos justificou o crime dizendo que acharam que a vítima era uma prostituta. Eles não tinham índio para queimar. Agora é prostituta. O desabafo de um policial, registrado em matéria do jornal O Globo, remete ao caso do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, que, na madrugada de 2 de abril de 1997, foi queimado vivo quando dormia num ponto de ônibus em Brasília. O crime foi praticado por cinco jovens de classe média alta, um deles maior de idade, que jogaram álcool sobre o corpo do índio e atearam fogo.

“Como é que chegamos a isto?” A pergunta, de um internauta, carregada de angustiada perplexidade, está subjacente em inúmeros e-mails e cartas que, aos borbotões, chegam às redações dos jornais. O crime, não obstante sua covarde crueldade, é, lamentavelmente, um registro dramaticamente rotineiro na crônica policial. Ele provoca, talvez, um espasmo de indignação. E nada mais. É duro, sobretudo para a vítima e seus familiares, mas é assim. Estamos, todos, perigosamente anestesiados pelo câncer da violência que vai minando o organismo social. Assistimos a uma surpreendente vulgarização da delinqüência bem-nascida.

O tema, sem dúvida preocupante, exige uma reflexão aprofundada. O mal existe e, sem dúvida, tem algo de insondável. Mas a crueldade não é fruto do acaso. É o resultado de uma equação bem determinada. Violência transmitida pelo mundo do entretenimento, família dilacerada e impunidade compõem, estou certo, o caldo que engrossa a paranóia.

A era do entretenimento, cuidadosamente medida pelas oscilações do ibope, tem na violência um de seus carros-chefe. A transgressão passou a ser a diversão mais rotineira de todas. Alguns setores do negócio do entretenimento, apoiados na manipulação do conceito de liberdade de expressão, crescem à sombra da exploração das paixões humanas. Ao subestimar a influência da violência ficcional, omitem uma realidade bem conhecida da psicologia: a promoção do sadismo como instrumento de diversão não produz a sublimação da agressividade, antes representa um forte incitamento a comportamentos anti-sociais. Morte, agressão e estupro, realidades banalizadas por certas novelas e programas de auditório, acabam sendo incorporadas pelos criminosos juvenis. A onipresença de uma TV pouco responsável pode estar na origem de inúmeros comportamentos patológicos.

A crise da família está também na raiz do problema. Não sou juiz de ninguém. Mas minha experiência profissional indica a presença de um elo que dá unidade aos crimes praticados por adolescentes: o esgarçamento das relações familiares. Há exceções, é claro. Desequilíbrios e patologias independem da boa vontade dos pais. A regra, no entanto, indica que o crime infanto-juvenil tem suas raízes num ambiente familiar desestruturado.

Se a crescente falange de jovens criminosos deixa algo claro, é o fato de que, cada vez mais, pais não conhecem seus filhos. “Como pai eu sou suspeito, mas meu filho estudava e trabalhava, ia e voltava do trabalho comigo, é um garoto bom”, comentou o pai de um dos acusados. Na falta do carinho e dos limites, os jovens crescem sem referenciais morais e laços afetivos. Recebem, freqüentemente, boas mesadas, carros e viagens. Mas, certamente, trocariam tudo isso pela presença dos pais. A grande doença dos nossos dias tem um nome: a desumanização das relações familiares.

A ausência de limites, a crise da autoridade e a impunidade estão na outra ponta do problema. Transformou-se o prazer em regra absoluta. O sacrifício, a renúncia e o sofrimento, realidades inerentes ao cotidiano de todos nós, foram excomungados pelo marketing do consumismo alucinado. Decretada a demissão dos limites e suprimido qualquer assomo de autoridade (dos pais, da escola e do Estado), sobra a barbárie. A responsabilidade, conseqüência direta e imediata dos atos humanos, simplesmente evaporou. Em todos os campos. O político ladrão e aético não vai para a cadeia. Renuncia ao mandato. Delinqüente juvenil não responde por seus atos. É “de menor”.

É preciso um choque de bom senso. Impõe-se a recuperação da noção da existência de relação entre causa e efeito. O erro, independentemente dos argumentos permissivos da psicologia da tolerância, deve ser condenado e punido. As análises dos especialistas esgrimem inúmeros argumentos politicamente corretos. Fala-se de tudo. Menos da crise da família, da irresponsabilidade do mundo do entretenimento e da impunidade. Mas o nó está aí. Se não tivermos a coragem e a firmeza de desatá-lo, assistiremos a uma espiral de crueldade sem precedentes. É só uma questão de tempo. Já estamos ouvindo as primeiras explosões do barril de pólvora. É preciso pôr o dedo na chaga e identificar a relação que existe entre o medo de educar e seus assustadores efeitos anti-sociais.

O horror dos delitos sem explicação não está nas telas dos cinemas. Está batendo às portas das casas de um Brasil que precisa recuperar suas raízes genuínas.

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