Um dos problemas que mais afligem os habitantes da cidade de São Paulo é a violência e a criminalidade. Todos os que trabalham ou estudam nesta cidade temem ser surpreendidos por um assaltante enquanto transitam pelas ruas a pé ou dirigindo seu automóvel. A diminuição de bem-estar causada por este medo é tremenda. Mas o que está acontecendo com a criminalidade nos últimos anos? A violência está crescendo ou diminuindo em São Paulo?

Uma pesquisa de vitimização concluída recentemente pelo Centro de Políticas Públicas do Ibmec São Paulo entrevistou uma amostra representativa de quase três mil paulistanos para tentar obter respostas para estas indagações. As pesquisas de vitimização são importantes porque, ao conversar diretamente com os cidadãos, elas não se baseiam nas estatísticas oficiais, que geralmente são enviesadas para baixo, pois grande parte das ocorrências de roubo, agressão e furto não são notificadas para a polícia. Uma limitação das pesquisas de vitimização, por outro lado, é que elas não consideram os casos de homicídios, pois não é possível entrevistar as vítimas desse tipo de crime.

Ao compararmos os resultados da pesquisa realizada em 2008 com outra (no mesmo formato) realizada em 2003, podemos saber se a criminalidade está aumentando ou diminuindo na cidade de São Paulo. A figura ao lado mostra os principais resultados da pesquisa. Houve diminuição estatisticamente significativa nos casos de estelionato, agressões (físicas e verbais), acidentes de trânsito, roubo ou furto de veículos e de componentes de veículos (CDs etc.). O número de roubos de residências, casas de temporada e de crimes contra a pessoa (roubo ou furto de celular, relógio, joias ou dinheiro) permaneceram estáveis. Assim, de modo geral, a vitimização diminuiu em alguns tipos de crimes e permaneceu constante em outros.

Quais foram os determinantes dessa queda nas taxas de vitimização? Impossível saber com certeza, mas tanto fatores sociais como fatores policiais podem ter desempenhado papéis importantes. Entre 2003 e 2007, a taxa de crescimento real da economia paulista subiu, a desigualdade de renda caiu e a escolaridade dos jovens aumentou significativamente. Todos estes fatores tendem a diminuir a violência. Além disto, a polícia ficou mais organizada e eficiente e o número de presos e cadeias aumentou, o que também tende a inibir o crime.

Há motivos para comemoração? Apesar da queda observada em alguns tipos de crime ser uma ótima notícia, devemos notar que os níveis de vitimização ainda são muito elevados. A porcentagem de pessoas que foi vítima de algum tipo de estelionato (clonagem de cartão, cheque sem fundo etc.) é de 21%. Isto significa que aproximadamente um em cada cinco paulistanos foi vítima de algum tipo de fraude nos 12 meses anteriores à pesquisa. No caso de roubo ou furto de veículos, a taxa em 2008 foi de 6%, ao passo que 8,4% das pessoas foram furtadas ou roubadas fora de casa e longe do seu automóvel. De modo geral, 36% dos paulistanos foram vítimas de algum tipo de crime (excluindo agressão verbal e acidentes de trânsito) no ano anterior à pesquisa. Estas taxas ainda são muito elevadas.

Quando examinamos a probabilidade do paulistano ter sido vítima ao longo de sua vida, os números são ainda mais alarmantes. Vinte por cento dos paulistanos (1 em cada 5) já foi ameaçado com uma arma de fogo, 20% teve um carro ou moto roubados, 15% teve sua casa invadida por assaltantes, 15% sofreu algum tipo de agressão física e 33% já teve algum objeto roubado no decorrer da vida. A probabilidade de ter sido vítima de pelo menos um destes crimes ao longo da vida é próxima de um.

Por fim, podemos comparar a situação da cidade de São Paulo com a de alguns países do mundo, usando os “International Crime Victims Survey”, que são pesquisas telefônicas feitas periodicamente em vários países. Embora haja diferenças metodológicas importantes entre essas pesquisas e aquelas conduzidas em São Paulo, essas comparações nos permitem ao menos ter uma ideia do caminho que teremos de percorrer para alcançarmos uma situação mais civilizada. Por exemplo, a taxa de roubos de automóveis em 2000 era de 2,6% na Inglaterra, 2,1% na Austrália, 1,9% na França e 0,5 nos Estados Unidos. No Brasil esta taxa era de 6% em 2008, 12 vezes superior à dos Estados Unidos, mas “apenas” 2,3 vezes maior que a da Inglaterra. Em termos de roubos de componentes de automóveis (CDs, casacos, mochilas etc.), a taxa de vítimas no Brasil é de 8,7%, na Inglaterra em 2000 era de 8%; na Polônia, de 9,0%; na Austrália, de 7,3%; e nos Estados Unidos, de 7,1% – ou seja, não estamos tão pior assim que os países mais desenvolvidos. Por fim, em termos de assaltos à residência, as taxas são de 4% na Austrália, 2,8% na Inglaterra, 1,8% nos Estados Unidos e 5,8% no Brasil. Mas nosso maior problema são mesmo os homicídios, em que temos taxas 12 vezes maiores que as da Inglaterra, por exemplo. Ainda temos um longo caminho pela frente!

(Valor Econômico – 20/03/2009)

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