Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
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Crise e mediocridade

Aumentou a presença da palavra crise no noticiário. Na verdade, são muitas as crises. Elas causam incertezas, desânimo e até medo. O destaque é a crise econômica, caracterizada por recessão, inflação alta, desemprego crescente, renda ladeira abaixo, confiança e investimento em queda, e elevada vulnerabilidade externa. O que esperar?

A atual crise econômica é a primeira da nossa história a ser antecipada

A crise da Petrobras diminui os investimentos da estatal, repercute na sua cadeia de suprimentos e faz o PIB perder ainda mais ritmo. A crise política, que se deve às deficiências de liderança da presidente Dilma, cria vácuo e abre espaço para o protagonismo, o oportunismo e a falta de responsabilidade do Congresso. Vejam-se a decisão de enfraquecer o fator previdenciário e outras que agravam a já difícil situação fiscal.

Crises acontecem em sistemas complexos (a família, a economia, a sociedade), conduzindo a situações instáveis e perigosas. Podem ocorrer de repente — de causas difíceis ou impossíveis de antecipar — ou resultar de longo e cumulativo processo de circunstâncias, muitas vezes por falhas do governo.

Exemplo de crise repentina é o terremoto (e suas consequências). Outros são colapsos financeiros que podem espalhar-se mundo afora, como os que deram origem à Grande Depressão (anos 1930) e à crise de 2008, ambos iniciados nos Estados Unidos. Os dois decorreram da incapacidade de detectar riscos e de adotar medidas preventivas.

Na década de 30, erros do Federal Reserve (o banco central americano) e medidas protecionistas acarretaram quebra de bancos e redução do comércio mundial. Estão aí as raízes da Grande Depressão. Em 2008, deficiências de regulação permitiram que instituições financeiras assumissem riscos irresponsáveis em operações com hipotecas. A quebra do banco Lehman Brothers foi o disparador da crise, mas suas bases já estavam lançadas.

Crises econômicas podem advir de erros cujos sinais não são captados por analistas e estrategistas do governo. A crise de 2008 vem mais uma vez à mente. O então festejado presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, não percebeu a erosão dos alicerces do sistema financeiro americano. A rainha da Inglaterra, que teria perdido 25 milhões de libras em seus investimentos, ficou perplexa. Em evento na London School of Economics, perguntou por que ninguém detectara o problema. Resposta do professor Luis Garicano, diretor de pesquisa da escola: “A cada momento, alguém confia em alguém e todos imaginam que estão fazendo a coisa certa”.

No Brasil, crises econômicas aconteceram, não raro, por incapacidade de percebê-las. No regime militar, a ausência de liberdades como a de imprensa inibia a crítica e dificultava a identificação de riscos. Em alguns momentos, crises econômicas acarretaram crises políticas graves, das quais sobreveio o autoritarismo. O regime militar de 1964 perdeu legitimidade com a crise econômica da década de 80, o que contribuiu para o seu fim.

A atual crise econômica é a primeira da nossa história a ser antecipada, embora não se criassem condições políticas para revertê-la durante sua evolução. No primeiro mandato de Dilma, analistas e imprensa apontaram repetidamente erros crassos: excessiva e desastrada intervenção na economia, aumento de gastos e contabilidade fiscal criativa, além de retrocessos na abertura da economia. Previa-se que a “nova matriz macroeconômica”, um amontoado de ideias bolorentas, daria com os burros n”água. Teimosia e ideologia tornaram moucos os ouvidos do governo. A conta chegou.

Felizmente, o país mudou. Construímos instituições que disciplinam o governo e forçam em algum momento a correção de rumos. Daí o ajuste fiscal em curso. Assim, ruptura política ou desorganização da economia são eventos pouco prováveis. Dificilmente recairemos na ditadura ou na hiperinflação.

O principal efeito dos erros do primeiro mandato é a queda drástica do investimento e da produtividade. São reveses que nos imporão longa travessia até que novas lideranças consigam realizar reformas estruturais que nos devolvam a capacidade de fazer crescer a economia em ritmo satisfatório. Isso posto, o principal subproduto dos erros tende a ser a mediocridade, não um salto no escuro. Aleluia!

Fonte: Veja, 13/06/2015.

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