Domingo, 11 de dezembro de 2016
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A crise e o mercado de trabalho

A crise econômica finalmente chegou ao mercado de trabalho. A taxa de desemprego em maio medida pela Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, que havia declinado de 10,2% em 2005 para 4,9% em 2014, subiu drasticamente para 6,7% em 2015. A taxa de desemprego entre os jovens, em particular, que havia declinado quase 10 pontos percentuais entre 2005 e 2014, subiu 4,3 pontos nos últimos 12 meses, atingindo 17,9%. O que causou esse grande aumento de desemprego? Quais as perspectivas pela frente?

O ciclo de crescimento econômico que beneficiou especialmente as famílias mais pobres teve início em 2003, com o forte crescimento do valor real do salário mínimo combinado com inflação sob controle e entrada de recursos externos, que provocaram um aumento contínuo da renda dos trabalhadores que ganhavam menos. Esses trabalhadores e suas famílias passaram a consumir mais produtos e serviços que empregam intensivamente os próprios trabalhadores menos qualificados, o que deslocou a demanda por esses trabalhadores. Esse aumento de demanda (aliada à redução do número de trabalhadores jovens) permitiu que os aumentos no salário mínimo fossem sancionados no mercado de trabalho, sem provocar aumentos na taxa de desemprego ou na informalidade que, ao contrário, se reduziram substancialmente.

O fim do ciclo foi provocado pela estagnação da produtividade no setor de serviços e pelo péssimo gerenciamento macroeconômico que fizeram com que esse aumento de salários fosse inteiramente repassado para os preços, o que gerou inflação elevada e persistente no setor de serviços. Esse processo, juntamente com o aumento de subsídios e gastos públicos na tentativa de sustentar artificialmente esse ciclo positivo, tornou o atual programa de ajuste inevitável para tentar colocar a economia novamente nos eixos nos próximos anos.

Esse ajuste já começou a diminuir o salário dos trabalhadores. A figura abaixo mostra o comportamento do salário real dos trabalhadores adultos entre 2005 e 2015 e a taxa de participação dos jovens no mercado de trabalho nesse mesmo período. Podemos verificar que entre 2005 e 2014 o salário real dos trabalhadores adultos aumentou 30%. Porém, a crise econômica, aliada ao aumento inflacionário necessário para corrigir os preços relativos, provocou uma redução de 7% no seu valor nos últimos 12 meses.

Como podemos sair da crise? Temos que aproveitá-la para fazer um forte ajuste nos setores público e privado em busca de maior produtividade, ou seja, fazer mais com menos

A contrapartida do aumento persistente de renda real dos adultos entre 2005 e 2014 foi a redução de 12% (ou 6 pontos percentuais) na taxa de participação dos jovens nesse mesmo período. Isso ocorreu porque o aumento da renda dos pais (especialmente das mães) nos domicílios chefiados por trabalhadores menos qualificados permitiu que os jovens parassem de fazer “bicos” durante o dia, ao mesmo tempo em que frequentavam a escola à noite. Entretanto, o queda do salário real dos adultos no último ano fez com que a taxa de participação dos jovens parasse abruptamente de cair, como mostra a figura. Assim, os jovens menos qualificados voltaram a procurar empregos precários para tentar complementar a renda familiar.

A estabilização da taxa de participação dos jovens, aliada ao contingente adicional de jovens que chega todos os anos ao mercado de trabalho e à redução da demanda por esses jovens provocada pela crise econômica, aumentaram a sua taxa de desemprego abruptamente.

Como podemos sair da crise? Temos que aproveitá-la para fazer um forte ajuste nos setores público e privado em busca de maior produtividade, ou seja, fazer mais com menos. No setor publico é possível aumentar bastante a qualidade do atendimento sem aumentar os gastos, melhorando a gestão dos recursos, avaliando o impacto de cada politica pública e introduzindo o mérito como forma de remuneração para aumentar a motivação dos funcionários públicos.

No setor privado é necessário quebrar a “parceria” existente entre as grandes empresas, suas associações e os órgãos governamentais, que faz com que uma quantidade enorme de recursos públicos seja transferida para setores sem contrapartida produtiva, às custas dos que realmente necessitam. Por fim, seria necessário abrir mais a economia, reduzindo as barreiras tarifárias e não-tarifárias à importação, para permitir a compra de insumos tecnologicamente mais avançados da China e aumentar a eficiência das empresas através da competição internacional. Só assim as empresas realmente produtivas poderão sobreviver à crise e gerar os empregos necessários para o início de um novo ciclo econômico virtuoso.

Fonte: Valor Econômico, 17/7/2015

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