A crise sugere mudança, mas uma de suas dimensões mais críticas é saber o que vai e o que fica. Senão, a mudança vira bota-fora, mutilação ou suicídio. Soluções finais como paredão e holocausto são uma coisa; uma outra, muito diversa, é saber como enfrentá-la e vivê-la. Para tanto, antes de atribuir sua existência aos adversários, aos jornais, ou reduzí-la a uma causa única, é preciso atravessá-la e se deixar por ela atravessar. Trata-se tanto de buscar os seus responsáveis mais visíveis quanto de apelar menos para uma explicação (e um culpado) exclusiva e mais para o diapasão compreensivo. Para uma visada holística e abrangente, disposta a avistar a paisagem. Como nos pedidos de perdão e nos funerais de entes amados; vão-se a arrogância e os corpos, mas nem o ajoelhar-se e a morte levam o amor.

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Walter Lippmann, um dos raros jornalistas que pensou criticamente o papel do jornal num pequeno-grande-mundo caracterizado por contradições e paradoxos, escreveu no livro “The Public Opinion”(publicado em 1922) algo que resume bem esse ponto de vista, quando diz: “O mundo é muito vasto, muito complexo e muito fugaz para ser apreendido diretamente. Nós não estamos equipados para lidar com tanta sutileza, com tanta variedade; com tantas permutações e combinações. Temos que reconstruí-lo num modelo simples antes de lidar com ele. Para percorrer o mundo os homens têm que ter mapas do mundo”.

Há muita sabedoria nesse período recheado de uma visão cautelosa – e eu diria, quase roseana da vida; esta vida tão perigosa de viver. Prudência e respeito não somente pela crise que não pode ser separada das nossas ações, pois são parte delas; mas – e isso é absolutamente fundamental – pela maneira de apanhá-la, pois não há hipótese – como compreende Lippmann – de falar do mundo sem intermediários, mediações e interposições. Coisa preciosa numa modernidade tão confiante nos seus mapas e diagnósticos, quase sempre transformados em receitas e protocolos que, por algumas vezes, beirou o suicídio.

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Na crise, é preciso decisão e também humildade. Ela mostra falhas pontuais, mas revela os limites de nosso entendimento desse mundo vasto e complexo. Um mundo que, na Venezuela, usa o liberalismo para desenhar uma presidência indefinida. Que, nos Estados Unidos, reintroduz a liderança carismática e salvacionista e reinventa, dentro de um esquema excepcional de empréstimos governamentais, um teto salarial para banqueiros! Que faz com que os fundadores da economia de mercado voltem a falar de protecionismo, retomem o nacionalismo e, com ele, as velhas teses das integrações territoriais baseadas no dogma da homogeneidade étnica e na decisão de “comprar o nacional”, quando o consenso econômico universal, que parecia ter vindo para ficar, sacralizava a receita do comprar o melhor, o menos danoso ao meio ambiente, e o mais barato. A sutileza, por sua vez, chega quando se descobre que Obama não foi eleito presidente das boas intenções mundiais, mas de um paaís específico dotado de interesses e problemas singulares. A riqueza financeira e material não pode ser a dimensão que justifica tudo e, nesse sentido, a crise recomenda – como o velho Lippmann – que se estudem os mapas pelos quais nela navegamos. mapas que (como sabem os antropólogos) são também modos de construí-la.

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A crise sugere um esgotamento dos mapas. É preciso ultrapassar o reducionismo econômico e político, ambos desenhados pelo individualismo, ambos privilegiando uma visão da sociedade como um mero resultado de conjuntos de decisões individuais, para ver o mundo como um conjunto feito de partes interligadas. Para descobrir que tudo o que fazemos afeta os outros. O individualismo nega esse fato, mas as suas consequências – a crise ecológica e a sua irmã gêmea, a crise financeira – obrigam a ver a relação entre a parte e o todo. Entre o lixo e o luxo. Entre um consumo conspícuo que promove os estupros sociais dos 500 pares de tênis dos moradores dos Jardins e do Leblon, por oposição ao prato de feijão que falta na mesa dos nordestinos. Estupro reiterado no luxo que produz continentes de detritos, em vez das velhas latas de lixo.

É essa presença incômoda de limites não ideológicos e extrapolíticos que caracteriza a crise em que vivemos. E a crise, por sua vez, aponta para um mundo vasto, complexo, sutil e carente de novos modos e mapas.

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