Sábado, 3 de dezembro de 2016
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Crise, PIB e salários

Existe muita curiosidade por parte do público em geral por saber o que está acontecendo com a renda da parcela mais pobre da sociedade brasileira. O objetivo é saber se os erros de política econômica do governo anterior reverteram todos os ganhos obtidos pelos mais pobres que ocorreram como resultado das políticas sociais promovidas por esse mesmo governo. Até que ponto a situação dos mais pobres realmente se reverteu com a crise?

Qualquer que seja a medida utilizada, ainda estamos muito longe de reverter os ganhos obtidos desde 2001, especialmente entre os mais pobres. A melhor maneira de se medir o bem-estar da população brasileira é através das pesquisas domiciliares do IBGE que coletam informações não somente sobre a renda do trabalho, mas também sobre todas as outras rendas, como as que vêm dos programas de transferências de renda, aluguéis, previdência e outras fontes. Sem essa informação não é possível calcular a renda familiar per capita, que é o indicador mais utilizado para calcular o rendimento dos mais pobres e a desigualdade de renda.

As outras fontes de renda (além do trabalho) sempre foram coletadas e divulgadas pelas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicilios (PNADs) que são realizadas anualmente desde 1977 com uma amostra representativa da população brasileira, com poucas mudanças desde então, num brilhante e pioneiro esforço feito pelo IBGE para mapear as características de renda, moradia, trabalho, posse de bens e composição familiar. Desde 2012, o IBGE passou a divulgar também a PNAD-contínua que entrevista uma amostra de domicílios todos os meses, tal como a Pesquisa Mensal de Emprego, mas com uma abrangência maior, pois entrevista domicílios de todo o país, ao invés de se concentrar nas regiões metropolitanas tal qual a PME.

Porém, o IBGE não tem divulgado as informações sobre os rendimentos de outras fontes, que não o trabalho, com os dados da PNAD-contínua. Assim, não é possível saber com precisão o que está ocorrendo com a renda familiar, pobreza ou mesmo a desigualdade desde 2014 (último ano em que a PNAD tradicional foi divulgada). Para satisfazer nossa curiosidade, temos que usar os rendimentos do trabalho, que não são ideais para esse propósito, uma vez que as transferências de renda se expandiram bastante desde 2001, justamente para atenuar os efeitos do desemprego e dos baixos salários sobre a pobreza. Além disso, os rendimentos da previdência aumentaram muito na última década, como decorrência da política de valorização do salário mínimo.

Também é complicado utilizar o indicador de PIB per capita para tentarmos inferir o comportamento da renda familiar per capita. A figura ao lado, por exemplo, compara a evolução do PIB per capita com a média da renda do trabalho familiar per capita desde 1996 até 2015 (sempre em termos reais e com relação a 1996). O crescimento da renda do trabalho média entre 2014 e 2015 foi calculado com os dados da PNAD-continua.

Podemos verificar que entre 1996 e 2001, enquanto o PIB per capita declinou 1,5% o salário per capita médio caiu muito mais (8%) e a renda familiar per capita (não mostrada no gráfico) caiu 3,3%. Já entre 2001 e 2006, o PIB per capita aumentou 9%, o salario per capita médio 17% e a renda média 13%, ou seja, o crescimento do salário familiar foi o dobro do crescimento do PIB per capita. Por fim, entre 2006 e 2014, o PIB per capita aumentou 21%, o salário aumentou 42% e a renda 37%. Novamente, o salário médio e a renda aumentaram quase duas vezes mais que o crescimento do PIB per capita.

Ao compararmos essas medidas entre 2014 e 2015 podemos ver que, enquanto o PIB declinou 4,6%, o salário caiu menos de 1%. Assim, a perda de rendimentos no mercado de trabalho foi bem menor do que a queda do PIB, mesmo com a taxa de desemprego aumentando bastante.

Desta forma, fica claro que, mesmo usando uma medida imperfeita de bem-estar, ainda estamos muito longe de reverter os ganhos sociais obtidos desde 2003. O salário médio teria que cair quase 40% para que voltássemos ao nível de 2003. Entre os mais pobres, como o crescimento salarial foi bem maior do que a média, esse declínio também teria que ser ainda maior. Algo que não vai acontecer tão cedo, pois mesmo entre 2015 e 2016 (auge da crise) o rendimento do trabalho dos trabalhadores menos qualificados caiu apenas 3%.

Em suma, não sabemos com certeza o que está ocorrendo com a renda familiar total das classes mais baixas desde o final de 2014 até agora. Mas, claramente, os ganhos obtidos pelos mais pobres desde 2003 não serão revertidos tão cedo. E precisamos entender porque o PIB e a renda per capita têm apresentado comportamentos tão distintos no Brasil nos últimos anos.

PIB (1)

Fonte: Contas Nacionais e PNAD (IBGE)

Fonte: “Valor econômico”, 19 de julho de 2016.

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