O título lembra obra da literatura “nonsense” misturando populismo, corrupção, inépcia e repressão. É uma história com repetições de uma trama com os mesmos elementos num lugar fantástico, revelando uma lógica do absurdo, característica dos sonhos e dos pesadelos.

A personagem principal é Cristina e a narrativa começa em 1973, na celebração do fim da ditadura militar. A volta da democracia expõe a incapacidade dos governantes eleitos em apresentar um projeto de país e fazer acontecer. Em pouco tempo, o quadro econômico se deteriora e os relatos de corrupção aumentaram. A inépcia em administrar o país recebia críticas cada vez mais fortes.

O governo identificou a origem dos problemas nos que reclamavam, e optou por fazer-los calar. Para tanto, foi criada a AAA – Aliança Anticomunista Argentina, apesar da inexpressividade do partido comunista lá. O início do movimento repressivo foi contundente, foram contabilizados 600 “desaparecidos” em menos de três anos, antes do apagar das luzes da presidência de Isabel Perón.

A partir de 1976, a volta do governo militar repetiu os mesmos elementos, numa dimensão que nem o mais criativo dos escritores argentinos conseguiria imaginar. Foram dezenas de milhares de “desaparecidos”, a justificativa era uma guerra para defender os princípios “ocidentais” do país.

Os militares no governo mostraram-se incapazes de fazer a economia decolar e foram coniventes com uma corrupção sem paralelos na história. A falta de apoio popular já era notória por ocasião da Copa do Mundo de futebol em 1978. Mais medidas populistas foram adotadas, todas com fôlego curto, a última e a mais desesperada foi o ataque às ilhas Malvinas, um desastre militar e político.

É sempre a mesma trama. Em vez de um projeto de país, os governantes têm um projeto de poder. A falta de capacidade de fazer acontecer é compensada com medidas populistas. Em vez de entender que a origem dos problemas está dentro da Casa Rosada, colocam a culpa em quem aponta as distorções. É a lógica de quebrar o espelho quando a imagem está ruim.

Cristina agora é a protagonista. Foi eleita presidente, sucedendo o marido. Na gestão de seu patrimônio pessoal tem um desempenho comparável ao dos melhores empresários do mundo; junto com o esposo, tem um patrimônio pessoal de US$ 14 milhões, que cresce a taxas elevadas. Entretanto, na condução do país, ela insiste em repetir o padrão de governos anteriores.

Não há uma agenda para o futuro, apenas medidas imediatistas, como a estatização da previdência privada para fazer caixa para o tesouro, controlar o câmbio, tabelar preços e distorcer a realidade.

Um exemplo é o tratamento dado à inflação: quando começou a subir, em vez de atacar as causas, interveio no Indec, o órgão que calcula a evolução dos preços e do PIB (o equivalente ao IBGE daqui). Abundam denúncias de manipulação dos números. Este ano, a Argentina deve ter uma inflação da ordem de 30% ao ano, uma das maiores do mundo.

A insistência num populismo anacrônico piora o desempenho econômico com consequências cada vez mais evidentes: nível de investimento baixo, gargalo em infraestrutura, racionamento de energia e a confiança dos empresários em queda.

A insistência num populismo anacrônico piora o desempenho econômico com consequências cada vez mais evidentes: gargalos em infraestrutura, nível de investimento baixo, racionamento de energia, risco país alto, uma dinâmica fiscal com uma deterioração crescente e a confiança dos empresários no governo em queda. Na última semana, o presidente da Unión Industrial Argentina comparou o país com Cuba, apesar do exagero, o fato é que o clima é pouco propício para realizar negócios. Ela já amarga derrotas no Congresso e perdeu a maioria do legislativo. A perda de popularidade está colocando em risco seu projeto de poder.

A causa não é da realidade que insiste em conspirar contra a inépcia e sim da imprensa que noticia o que está acontecendo. Nesse caso, a solução é abafar a imprensa, quebrar o espelho. O alvo principal é o jornal “El Clarín”, o de maior circulação lá. Uma das ações foi forçar a quebra de um contrato da AFA com o grupo Clarín, para a transmissão dos jogos de futebol, empregando como argumento “o sequestro de gols” fazendo uma analogia com a ditadura militar, mas usando o mesmo esporte para tentar ganhar popularidade.

Outras ações contra o grupo jornalístico incluem uma megablitz da receita federal na empresa, uma lei restringindo a atuação do grupo em outras mídias, o cancelamento da autorização para operar TV a cabo, a anulação da licença para oferecer serviços de internet, piquetes organizados por sindicatos pró-governo impedindo a saída dos caminhões que distribuem os jornais e, nas últimas semanas, uma manobra para expropriar a fábrica de papel de imprensa com argumentos fantasiosos.

É a mesma lógica das tramas anteriores, um espelho que não reflete uma imagem favorável tem que ser destruído. O ponto é que mesmo quebrando todos, o final da história é conhecido: uma crise, seguida de um recomeço, este, quiçá, com um final feliz.

Fonte: Jornal “Valor econômico” – 09/09/10

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