Crônica de viagem num país sem governo

Dirceu Martins Pio

As viagens de férias pelo Brasil – de carro, em  pleno verão – são todas elas na base do “turismo-aventura”. Somos submetidos a tantos perigos  e tanta chateação pelas nossas rodovias que não existe certeza de que chegaremos ao destino ou se voltaremos sãos e salvos para casa.

Mesmo consciente dos riscos, empreendi no início de janeiro um passeio a Santa Catarina, partindo de Vinhedo (SP), onde moro nessa minha obstinada procura de mais qualidade de vida. Fui em companhia de um casal bastante interessante, o que me permitiu ampliar e aprofundar, nessas circunstâncias, as observações sobre o país onde vivemos. Ele é o meu amigo Antônio Celso Zangelmi, que trabalhou na montagem e na recuperação de fábricas de alimentos como consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) em 89 países; ela, sua esposa, é a búlgara Elissaveta Alexandrova, professora de química, empreendedora, que tenta hoje criar maior proximidade cultural e econômica entre o Brasil e a Bulgária. Hoje com 55 nos de idade, Elissaveta viveu toda a experiência do comunismo em seu país e aprendeu  que não existe regime melhor que a democracia.

A ida foi relativamente tranqüila, pois estávamos no contra-fluxo do transporte de cargas – intensivo e absurdo – das rodovias BR 116 e BR 101. O susto maior foi na Serra do Mar, na ligação entre Curitiba e Joinville, quando uma tempestade de granizo interrompeu o tráfego e nos obrigou a pelo menos uma hora de espera. Nosso destino era a Barra da Ibiraquera, praia famosa do município de Imbituba, mais ao sul do litoral catarinense. Dali saímos para um passeio de um dia ao município de Santa Rosa de Lima, que dispõe de uma fonte de água termal com temperatura de 35 graus centígrados. O passeio nos permitiu conhecer mais um trecho da BR 101 em fase de duplicação sob a coordenação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit), órgão que substituiu o DNER, fechado por problemas de corrupção.

O atendimento em bares, restaurantes e postos de gasolina levavam sempre  Celso Zangelmi a fazer o comentário que repetiu esparsamente durante toda a viagem: “Vamos levar ainda cem anos para alcançar o mesmo padrão de vida dos países desenvolvidos da Europa ou dos Estados Unidos”.  Sua experiência nesses 89 países em que trabalhou durante 20 anos  foi muito rica: “Uma vez – contou-nos- estava no trem que liga Roma a Viena e resolvi abrir um pedacinho da janela para melhor poder fotografar a paisagem. Imediatamente, como se saísse do nada, apareceu o bilheteiro que me intimou: – O senhor não pode fazer isso ! Tentei argumentar que era só por alguns instantes e ele ordenou: – Feche imediatamente a janela ! Quase fui posto para fora do trem”.

Durante toda a viagem nos revezamos no volante. A que dirigia melhor dos três era Elissaveta, habituada a dirigir na neve e na topografia montanhosa da Bulgária: “Para que servem as leis neste país ? “, ela nos perguntava sempre que  caminhões e ônibus nos ultrapassavam pela esquerda apesar das placas que avisam ser obrigatório o tráfego de veículos pesados pela direita.

A viagem foi sempre intercalada por momentos opostos. A descontração e o encantamento com as praias e a paisagem catarinenses cediam lugar à tensão e à angústia das horas em que precisávamos circular pelas rodovias.

O trecho da BR-101 após Florianópolis ainda lembra um canteiro de obras apesar de o final da duplicação ter sido prometido para dezembro de 2009. Trechos já duplicados, em uso, terminam, abruptamente,  em trechos  ainda de pista simples, alguns dos quais não possuem sinais de obras em andamento. Apesar da faxina empreendida no Ministério dos Transportes, o Dnit não dá a menor atenção aos usuários, a razão de existir de qualquer rodovia. Não  há sinalização de obras, de desvios, e a paralisação do tráfego é decidida sem nenhum comunicado ou aviso prévios.

No retorno, fomos surpreendidos por uma paralisação de mais de quatro horas no Morro dos Cavalos – nas imediações de Florianópolis – onde as obras de duplicação caminham a passo de tartaruga. Fomou-se um fila de veículos de tamanho incalculável nos dois sentidos. “Quem paga os prejuízos para o transporte de cargas ?, perguntava Celso Zangelmi, ao comentar que nos Estados Unidos todas as transportadoras processariam os responsáveis pela paralisação adotada sem aviso prévio aos usuários.  Sem saber as razões de tanta demora para liberação do tráfego, começamos a ligar para a Polícia Federal atrás de informações. Pelo telefone número 191,  éramos “informados” de que o trânsito nas rodovias federais de Santa Catarina encontrava-se “absolutamente normal”.

A Polícia Federal, que inform por telefone dispor de modernos carros-resgate e até  helicópteros para socorrer os acidentados, demorava 40 minutos para atender no ramal destinado aos avisos de emergências. Com muita insistência no mesmo telefone, ficamos sabendo que a empreiteira que faz a duplicação da BR 101 naquele trecho interrompeu, ao meio-dia, em plena temporada de verão, as duas pistas para realizar a detonação de uma pedra.

Novamente no contra-fluxo do transporte de cargas, o restante da viagem foi razoavelmente tranqüila. Fomos apenas espectadores dos enormes congestionamentos de caminhões que se formavam na pista contrária tanto na BR 101 como na BR 116. “Porque vocês não usam o mar para o transporte de cargas ?“, perguntou-me a perplexa Elissaveta Alexandrova a quem respondi simplesmente que a prioridade ao transporte rodoviário foi determinada há muitos anos atrás por um dos governos militares e que nenhum dos governos democráticos que vieram depois teve a vontade de mudá-la. A sensação que sobra da viagem é que vivemos num país sem governo.

 

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1 comment

  1. Markut

    Não é de surpreender o assombro de Ellisaveta. De fato, o pecado cultural que estamos cometendo, entre outros, é o de ignorar o mar e a hidrovia para transportes pesados, num país com a extensão do nosso e com os recursos potenciais que temos para esse fim.
    Na Europa costumam dizer que a Hidrovia é a mãe da ferrovia.Diria eu que é tambem a avó da rodovia.
    Tudo errado, num país imaturo e de cultura ainda colonialista. O Brasil precisa sofrer e crescer mais para alcançar a desejada maturidade.