Sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A culpa não é dos planos de saúde

Seguindo a vertiginosa descida moral da nação, o Brasil apresenta problemas em todas as áreas, mas nenhuma é mais dramática do que o sucateamento do SUS e a derrota para quase todas as doenças e epidemias. Para quem quer um bom exemplo, o mosquito da dengue nada de braçada em cima da falta de eficiência no seu combate e agora, além da dengue, oferece duas novas doenças para castigar o brasileiro. Se a chikungunya não assustou muita gente – muito menos o Governo – o zika vírus, em pouco tempo, construiu outra realidade. Cientistas, como Oswaldo Cruz, Vital Brazil e Luiz Pereira Barreto devem estar se retorcendo em seus túmulos, vendo o mosquito que eles venceram na virada do século 19 para o 20 dando as cartas, matando e introduzindo um medo novo na população: a microcefalia, que já tem mais de 3 mil casos comprovados e tende a crescer rapidamente, comprometendo o futuro de milhares de brasileiros cujas mães foram picadas pelo “aedes”.

Se a realidade fosse apenas esta, já seria uma tragédia. Mas o quadro é muito pior. Uma série de outras doenças continuam firmes, em caráter endêmico e epidêmico, nas mais variadas regiões do país. E não são apenas os estados mais pobres que apresentam, além da dengue, chikungunya e zika vírus, o crescimento dos casos de febre amarela, hanseníase, AIDS entre os jovens, tuberculose, etc.

A única notícia boa a respeito foi o surgimento de uma vacina contra a dengue. Mas mesmo ela precisa ser vista com cuidado. A vacina em tela tem eficácia na casa de 60%, ao contrário das vacinas para outras doenças, onde a garantia de sucesso bate os 90%. Eu não sou da área, mas essa discrepância me faz perguntar se não é apenas jogada de marketing, tão ao gosto do PT. Ou mesmo uma nova possibilidade de corrupção, na compra da vacina vendida como a salvação da pátria.

Um país onde, constitucionalmente, a saúde é obrigação integral do Estado e direito pétreo da população, mas, na prática, o sistema privado, ou suplementar, é quem entra com o grosso do dinheiro, tem alguma coisa profundamente errada. E esta é a nossa realidade. Os planos de saúde privados, que atendem algo próximo de 50 milhões de pessoas, respondem por mais de 60% do total dos recursos destinados à saúde.

Se, de um lado, os hospitais de ponta brasileiros estão entre os melhores do mundo porque têm garantidos os recursos necessários pelos pagamentos feitos pelos planos de saúde privados, de outro, a falência do sistema público de saúde pode ser vista diariamente em todos os canais de televisão, nas imagens chocantes do que acontece no Rio de Janeiro.

E não é apenas o Rio que não dá conta. São Paulo tem problemas seríssimos em seus principais hospitais, entre eles, o Hospital Universitário da USP, o Hospital São Paulo, o Santa Marcelina e a Santa Casa de São Paulo. E nos outros estados a situação é muito pior.

Como se não bastasse, a crise que assola o país tem entre suas consequências o aumento do desemprego e o aumento do número de pessoas que procuram o sistema público de saúde. É que milhares de brasileiros, com a perda do emprego, estão perdendo seus planos de saúde privados.

Como o político nacional costuma ser um demagogo, já começam a falar que o aumento da demanda pelos serviços do SUS é culpa dos planos de saúde privados. Não é verdade. Os planos de saúde privados não estão expulsando seus clientes, até porque isto seria uma rematada sandice. Os brasileiros estão procurando o SUS porque perderam seus empregos e não têm como continuar pagando seus planos.

Isto faz os planos de saúde privados reféns de um quadro perigoso. A redução do número de segurados e a redução do nível dos planos por boa parte dos que continuam a tê-los reduz o faturamento das operadoras privadas, mas não reduz, no médio prazo, os procedimentos cobertos. O descasamento entre receitas e despesas pode comprometer a saúde do plano, jogando mais gente nas filas do SUS. Entre mortos e feridos, nesta guerra perdem todos. Sem dúvida nenhuma, perde o Governo, mas perde muito mais o cidadão.

Fonte: O Estado de S. Paulo, dia 18 de janeiro de 2016

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