Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Cunha, o vento e as birutas

Existem no Brasil figuras emblemáticas que estão para a política assim como as birutas estão para os aeroportos. Seus movimentos indicam a direção do vento. Os pilotos que se guiam pela biruta sabem que ela é fundamental para a segurança do voo. Já aqueles que seguem os movimentos de tais políticos sabem que eles apontam a direção do poder. Quando tais elementos percebem que o governo está prestes a mudar de mãos, sempre dão um jeito de romper de forma altissonante com o mandatário da vez para se posicionar como peças fundamentais para a ascensão do próximo cacique. O nome do vento que orienta essa turma, como já deu para perceber, é oportunismo.

Na hipótese de Dilma recuperar a popularidade que deixou escorrer entre os dedos, Cunha esquecerá a acusação de que embolsou US$ 5 milhões

O baiano Antônio Carlos Magalhães era mestre nessa arte. Defensor radical da ditadura militar — da qual se beneficiou com cargos e sinecuras desde o primeiro dia — rompeu de forma eloquente com o governo João Figueiredo ao bater boca com o então ministro da aeronáutica, brigadeiro Délio Jardim de Mattos. Mais do que demonstrar coragem, a atitude de desancar publicamente um militar de alta patente foi a senha para que ACM virasse as costas para o candidato apoiado por Figueiredo, o deputado Paulo Maluf, e se transferisse de mala e cuia para o time de Tancredo Neves no disputa pelo Colégio Eleitoral.

Outro que sabe como poucos a hora de abandonar um navio para embarcar em outro é o alagoano Renan Calheiros. Em 1989, deixou o PMDB para apoiar Fernando Collor de Mello. Os dois se desentenderam no ano seguinte, quando Collor (já com a popularidade em queda) lhe negou apoio na disputa para o governo de Alagoas. Calheiros, então, ajudou a derrubar o ex-aliado e mais tarde apoiou Fernando Henrique Cardoso, eleito presidente no auge do prestígio do Plano Real. Fiel correligionário de FHC enquanto foi conveniente, Renan chegou a ocupar o Ministério da Justiça no segundo mandato. Mas o prestígio do PSDB caiu e as eleições de 2002 já encontraram o alagoano entre os apoiadores mais entusiasmados de Luiz Inácio Lula da Silva.

Ira Santa

A decisão do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, de romper com o governo e sentar praça nas fileiras da oposição nada mais é do que um exemplo desse tipo de movimento. Cunha intui que o prestígio do PT está se exaurindo num ritmo que, tudo indica, conduzirá a uma derrota em 2018. A saída, então, é romper com um governo que foi extremamente útil para que ele amealhasse o prestígio que tem hoje.

Cunha interpreta os fatos e age de tal maneira que poderá dizer, no futuro, que é movido não pelas dificuldades eleitorais da presidente Dilma Rousseff e seus aliados, mas pela ira santa de alguém que teve a dignidade manchada pelas palavras de um delator. Mas que ninguém se iluda. Na hipótese de Dilma recuperar a popularidade que deixou escorrer entre os dedos, Cunha esquecerá a acusação de que embolsou US$ 5 milhões. Voltará e jurará fidelidade com a mesma convicção com que hoje declara guerra.

Fonte: Hoje em dia, 19/07/2015.

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