Héctor Ricardo Leis* e Patrícia Carlos de Andrade Corrupção na política parece ter havido sempre, mas a corrupção que ora nos assola nos chama a pensar além das tradicionais explicações da falta de ética dos implicados e buscar auxílio na sociologia. A suposta opção de parte importante da cúpula do PT pelo roubo dos bens públicos pode até ser um aspecto dos procedimentos do partido do governo, mas não é o único relevante. Um grave problema é que o PT, apesar de suas declamações, nunca se apropriou totalmente das regras do jogo democrático das instituições do Estado. Muitas ações do Executivo manifestam explicitamente certo desprezo em relação ao papel do parlamento, que convergem com as denúncias de compra de parlamentares. Essa prática não é uma novidade quando observada desde a perspectiva das alianças políticas feitas no Congresso para governar continuamente por meio de medidas provisórias. De fato, a compra de votos é apenas mais um elemento de um quadro que mostra que o governo tem tido limitada disposição para levar seus projetos ao Congresso e deixar que sejam votados, de acordo com seus méritos ou defeitos e segundo o juízo, certo ou errado, dos representantes do povo. A denúncia do deputado Roberto Jefferson sobre a compra de parlamentares pode não se confirmar na justiça. Ainda assim, muitos membros do governo afirmaram ter tomado conhecimento de tal procedimento há meses e acharam por bem não torná-lo público, o que mostra que, para parte importante do governo, o tema da compra de parlamentares não é algo que mereça qualquer atenção das instituições democráticas. A esquerda democrática, quando ganha uma eleição, sobe ao governo e depois, quando perde, aceita a derrota e deixa o poder. Reconhece assim que a derrota nunca é pior que enganar ao povo e suas instituições. Mas, no pouco tempo em que vem governando o país, o PT demonstrou que, apesar de seu verniz histórico de nova esquerda democrática, conserva traços significativos da esquerda mais tradicional – da esquerda que, quando sobe ao poder, seja por eleição ou revolução, não quer deixá-lo nunca mais. Que o diga Fidel Castro, com seus quase 50 anos no governo cubano! O que assistimos agora mostra que, para o PT, manter-se no poder é mais importante que manter a democracia ou melhorar o nível de vida da população. O PT começou a pensar na reeleição de Lula – e na eleição de seu sucessor – no dia de seu triunfo contra José Serra. Por isso o governo tende a evitar que seus projetos e medidas provisórias estejam sujeitos a discussão: ele não confia na força de seus argumentos para colocar contra a parede parlamentares que eventualmente sejam contrários à aprovação de projetos bons e racionais e para ganhar o apoio da opinião pública. No fim dos anos 70, o compromisso que a nova esquerda brasileira parecia ter com a democracia encantou muita gente. A esquerda tinha tudo para dar certo: movimentos sociais, sindicatos, intelectuais, idéias de esquerda que afirmavam um forte respeito pelo funcionamento das instituições democráticas. Parecia estar bem à frente do resto da esquerda latino-americana. Com o PT no poder, essa realidade mostrou-se mais contraditória. Muitos interpretam a mudança com categorias éticas, falando de traição, de submissão ao receituário “neoliberal”. Mas uma sociedade não aprende e continua a repetir seus erros políticos quando, como o PT insiste em fazer, atribui a falhas éticas dos atores todos os seus fracassos. A esquerda brasileira que nasceu nos anos de ditadura, tem duas vertentes: a do PSDB e a do PT. A do PSDB vinculou-se mais ao sistema político que aos movimentos sociais, manifestando, na época e depois, quando chegou ao poder, o mesmo compromisso com a democracia, sempre mantendo um padrão de respeito pelo funcionamento das instituições democráticas. O mesmo não se pode dizer do PT, que permaneceu intimamente associado a movimentos sociais, como a CUT e o MST, que se mantiveram fiéis a si mesmos, sem nunca aceitar cabalmente as regras de jogo da democracia. Quando chegou ao governo, o PT colocou em evidência não apenas o fato de que tinha, em suas fileiras, mais corruptos do que imaginava: mostrou também que nunca revisara os velhos preconceitos da esquerda clássica com relação à democracia. A culpa não é dos intelectuais do PT, que não teriam sabido se igualar aos do PSDB, nos seus esforços por esclarecer a questão democrática; nem é de uma suposta superioridade das capacidades políticas de FHC em relação a Lula. O problema principal do PT é não ter sabido desvincular-se do espírito corporativo e faccioso das práticas de certos movimentos sociais. Os membros do PT, inclusive o próprio presidente Lula, comportam-se nas instituições do estado do mesmo modo que se comportam os militantes desses movimentos sociais, esquecendo que as práticas internas de tais movimentos e, às vezes até seus objetivos, ficaram presos a um passado que nunca foi, nem poderia ser, condizente com os de um Estado democrático. Alguém já ouviu falar que Stedile tivesse sido escolhido pelos integrantes do MST através de eleições internas de acordo com regras democráticas? O preço que o povo brasileiro paga hoje é o custo da transferência da lógica corporativa e facciosa de funcionamento de certos sindicatos e movimentos sociais para as instituições do estado que, para serem democráticas, têm que ser dirigidas por uma lógica pluralista e transparente. Não vem ao caso nossa própria receita para curar os males do Brasil — basicamente, assumir de forma consistente um programa político-econômico mais liberal, que permita o pleno estabelecimento da democracia de mercado. Ainda que pensássemos o contrário, como democratas convictos teríamos o mesmo diagnóstico: nada avançará no Brasil se os representantes escolhidos pelo povo para a função executiva ou legislativa não cortarem as práticas não democráticas que existem na sua própria carne e levam a sério o funcionamento democrático das instituições pelo qual são responsáveis. *Héctor Leis é professor de sociologia e política da UFSC

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