“Estou consciente de que me calei, de que permiti que alguns poucos governassem a minha ilha como se se tratasse de uma fazenda”. (Yoani Sánchez)

Todo mundo, à exceção de alguns “intelectuais” e inocentes úteis, sabe que Cuba é um verdadeiro inferno. Alguns socialistas envergonhados condenam a opressão política, mas tentam enaltecer as “conquistas sociais”, tais como saúde e educação. Tais “conquistas” não passam de um mito, naturalmente. Eis porque uma simples blogueira incomoda tanto os defensores do regime. O livro De Cuba, com Carinho, de Yoani Sánchez, relata o verdadeiro cotidiano da ilha. A imagem extraída de seus artigos não é nada bonita.

Yoani buscou na internet a liberdade que ela não desfruta em seu país. Claro que tamanha ousadia – de expressar o que pensa numa ditadura – não se deu sem grandes riscos. Ela é vigiada 24 horas por dia, virou inimiga do “povo” e já sofreu até agressão física. Outros já tiveram destino pior, indo parar na cadeia ou no Paredón. Se Yoani continua escrevendo em seu blog Generación Y <http://www.desdecuba.com/generaciony/> , isso se deve ao patamar de fama que ela conquistou. A revista Time a elegeu uma das cem pessoas mais influentes do mundo. Eliminar Yoani do mapa chamaria muita atenção internacional. Até mesmo cruéis ditadores são pragmáticos às vezes.
Enfrentando todas as dificuldades e perigos existentes, Yoani continua escrevendo seus artigos e relatando o dia a dia em Cuba, aquele distante dos turistas nas bonitas praias caribenhas. A ditadura cubana segrega o próprio povo, criando uma subclasse sem acesso legal aos bens e serviços que turistas usufruem. A própria internet não é permitida, e Yoani precisa passar por turista para conseguir acesso nos hotéis e publicar em seu blog. O simples ato de escrever é visto por ela como a “coisa mais arriscada” que fez na vida. O socialismo real nunca tolerou a liberdade de expressão.

Sobre as “maravilhas” da educação cubana, especificamente os cursos pré-universitários no campo, eis o que Yoani tem a dizer: “A improdutividade, a transmissão de doenças, a deterioração dos valores éticos e o baixo nível acadêmico fizeram sucumbir esse método educativo”. Além disso, há uma intensa doutrinação ideológica, que força as crianças a repetir como o socialismo é incrível, enquanto observam à sua volta a realidade oposta. “A ideologização da educação cubana chegou a um ponto que alarma inclusive aqueles que, como nós, se formaram submetidos a esses mesmos métodos”, diz Yoani.

A “fantástica” conquista no campo da saúde, quando sai da mitologia e volta à realidade, transforma-se em um estrondoso fracasso também. Os pacientes precisam levar tudo aos hospitais, desde baldes para limpeza, travesseiro, ventilador, até mesmo a linha de sutura para uma cirurgia. Faltam os remédios mais básicos. Até mesmo o “grande líder”, quando ficou doente, mandou trazer médicos da Espanha para cuidar dele. A medicina cubana é uma
vergonha.

Segundo Yoani, a tentativa autoritária de construir o “novo homem” produziu resultados inesperados: “Em vez de soldados de cenho franzido, engendrou apáticos, indiferentes, gente mascarada, balseiros, descrentes e jovens fascinados pelo material”. O motivo é evidente, já que o “homem novo” não é tão diferente do resto dos seres humanos: “ele quer empregar o seu tempo e a sua energia em algo que resulte em prosperidade e bem-estar”. São metas impossíveis sob o regime socialista. Yoani pergunta: “Querer viver em uma casa na qual o vento não consiga arrancar o teto vai deixar de ser – algum dia – uma fraqueza pequeno-burguesa?”

O risco de outros países latino-americanos seguirem os tristes passos cubanos, ainda que disfarçados de “democracia”, não é ignorado por Yoani: “Desconfio tanto de quem desce uma montanha empunhando armas, quanto do eleito nas urnas que administra seu país como uma fazenda, como se tratasse da velha propriedade rural da família”. Para ela, a pior combinação é quando coincidem – numa mesma pessoa – “as figuras do caudilho e do gorila armado”. Os demagogos de camisas vermelhas, aspirantes a ditadores através de reeleições infinitas, ameaçam o que sobrou da liberdade no continente.

O tecido social cubano foi completamente esgarçado. Como explica Yoani, “existe uma maneira de infringir as leis, socialmente aceita, que consiste em roubar do Estado”. Onde tudo é proibido, tudo passa a ser ligeiramente permitido. O povo cubano descobriu no mercado negro a única chance de sobrevivência, num país assolado pelo racionamento, escassez de alimentos básicos, apagões constantes, epidemias ocultadas pelo governo e tantas outras desgraças, enquanto a nomenklatura vive no ar condicionado com a geladeira cheia. A luta contra a desigualdade social resultou, na prática, na maior desigualdade já vista: em baixo, o povo todo miserável; em cima, os ricos governantes.

Enfim, sob todos os aspectos o experimento socialista cubano resultou numa catástrofe. Após a queda da URSS e a perda da “mesada” milionária, a ilha entrou no “Período Especial”, fase em que até casca de banana passou a ser prato de luxo para muitos. Os petrodólares “bolivarianos” deram alguma sobrevida à economia, mas a situação é completamente precária. No lugar de educação, há uma doutrinação ideológica criminosa. A tão propalada saúde cubana não passa de um mito. E as mais básicas liberdades, como a de ir e vir, foram eliminadas pelos irmãos Castro, que encaram o povo como um rebanho bovino de sua propriedade.

Milhares de vidas sacrificadas no altar da Utopia, tantas outras perdidas na tentativa de migrar ilegalmente para Miami, e o restante todo na absoluta miséria e escravidão. Eis a realidade cubana, exposta por Yoani Sánchez, uma verdadeira intelectual, que tem coragem de desafiar uma ditadura assassina para não trair a verdade. Seu livro poderia muito bem se chamar Da
Ilha-Presídio, com Coragem.

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