Davos equatorial

Uma das principais lições do Fórum Mundial de Sustentabilidade, encerrado no último sábado em Manaus, talvez tenha se perdido nos minutos finais da participação do ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton.

Diante de mais de 700 pessoas no auditório do Hotel Tropical, ele afirmou que os brasileiros “não podem criar sozinhos as soluções para seus problemas de sustentabilidade”. Em seguida, referindo-se mais uma vez aos brasileiros, foi ainda mais claro: “o mundo precisa de vocês”.

Isso quer dizer o seguinte: diante de tema tão delicado como o futuro do planeta, ninguém, seja americano, javanês ou brasileiro (seja paulista, mineiro ou amazonense) pode afirmar que conhece as soluções. O mundo precisa do Brasil e o Brasil precisa do mundo. Esse é o ponto.

Na mesma linha de raciocínio, a questão da sustentabilidade não pode ser vista apenas sob a ótica da preservação das florestas. O Fórum mostrou que o problema não deve ser reduzido a esse aspecto, por mais relevante que ele seja. Caso isso venha a acontecer, pessoas não terão o que comer e nos restará como consolo morrer de fome numa atmosfera livre de gases causadores do efeito estufa.

Sim. Na cabeça de alguns, agricultura e pecuária são “atividades menos nobres”. Assim, produzir alimentos para populações urbanas chega a ser encarado como parte do problema, não como parte da solução.

É justamente aí que está a incógnita de uma das equações que fazem do Fórum um dos eventos mais importantes sobre a questão já realizados no mundo. Ao reunir empresários, ativistas, cientistas, executivos e formadores de opinião, o encontro confronta opiniões e obriga que uns levem em conta os interesses dos demais.

O “xis” da questão é: como produzir alimentos, fabricar artigos e gerar postos de trabalho num ambiente em que a humanidade não morra de fome ou por asfixia? Ou, ainda, onde a água mate a sede sem matar por doenças?

A solução, é claro, não sairá apenas da cabeça dos ambientalistas, que às vezes exibem dados que exigem tanto cuidado quanto um balanço auditado pela KPMG: podem até ser verdadeiros, mas são incapazes de inspirar confiança.

O que ficou claro é que os ambientalistas precisam dos empresários, que precisam dos cientistas, que precisam dos formadores de opinião, que, por sua vez, necessitam dos ambientalistas.

O conceito mais moderno de sustentabilidade, como se viu em Manaus, nunca pode excluir, mas também não pode se limitar, à dimensão ecológica. Ele inclui, no mesmo patamar de importância, a esfera social e a econômica.

O ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, numa exposição mais do que lúcida, deixou claro logo no primeiro dia que a adoção de processos produtivos sustentáveis, que resultem em carros, computadores, roupas e alimentos verdes, em lugar de prejudicar (como se imaginava no passado) acaba sendo um forte estímulo à geração de empregos.

É aí que está a importância do Fórum, que nos próximos anos poderá assumir para a sustentabilidade dimensão idêntica à do encontro de Davos para o tema do desenvolvimento. Mantida a proposta atual, o Fórum Mundial de Sustentabilidade se afirmará como evento plural, destinado a discutir a salvação do mundo e não apenas da Amazônia (fato que, infelizmente, não foi captado pelos políticos amazonenses presentes no encontro).

Assim como Davos, Manaus é palco e não tema. Todos os palestrantes tinham algo relevante a dizer. Ninguém estava ali para dar lições, mas para compartilhar experiências.

E o público, por sua vez, buscava soluções para problemas que, em seus aspectos emergenciais, dizem mais respeito à população de São Paulo ou do Rio de Janeiro (onde a qualidade do ar e as condições de saneamento atingiram níveis alarmantes) do que aos chamados “povos da floresta”.

O tema da sustentabilidade é amplo, complexo e mundial. E a discussão, por mais urgente que seja, está no início. Que o Fórum que o Lide e a Seminars vierem a promover em 2012 avance ainda mais na busca das soluções pautadas pelo pelo bom senso.

Fonte: Brasil Econômico, 28/03/2011

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