O filósofo John Rawls coloca uma questão fundamental em “Liberalismo político” (1993): “A cultura política de uma sociedade democrática é sempre marcada por uma diversidade de doutrinas – religiosas, filosóficas, morais – geralmente antagônicas e mesmo incompatíveis. Esse pluralismo de doutrinas razoáveis é visto pelo liberalismo político como o resultado inevitável do funcionamento da razão humana em um ambiente de livres instituições. Mas em uma sociedade surgem também doutrinas não razoáveis, irracionais e mesmo tresloucadas. O problema é como contê-las, impedindo que causem a própria dissolução da sociedade. Quais seriam, então, os limites de tolerância para a estabilidade de uma sociedade profundamente dividida por doutrinas antagônicas, embora aparentemente razoáveis?” Prossegue Rawls: “O sucesso das modernas democracias liberais foi a descoberta de uma nova possibilidade de convivência humana: a existência de uma razoavelmente harmônica e estável sociedade pluralista. Antes da prática bem-sucedida da tolerância, em sociedade baseadas em instituições liberais, essa possibilidade era desconhecida. A crença comum, como séculos de prática de todo tipo de intolerância sugerem, era a de que a ordem social requer a hegemonia de uma abrangente doutrina religiosa, filosófica e moral. A intolerância era aceita, portanto, como necessária à estabilidade da ordem social”. Em “A declaração da independência: um estudo da história das idéias políticas” (1922), o historiador Carl Becker questiona os resultados de métodos intolerantes até mesmo em busca dos mais nobres ideais. “Liberdade, igualdade e fraternidade são convicções pelas quais os homens sempre preferem lutar, em vez de se render. Não obstante, as idéias da Revolução Francesa trouxeram, em vez de uma ordem social justa, a guilhotina e o terror jacobino. E, em vez da harmonia entre os povos, o horror das guerras napoleônicas.” Adverte o sociólogo Norbert Elias em “A sociedade e os indivíduos” (1987): “Somos impelidos pelo curso da história humana como passageiros de um trem desgovernado. Recorremos a fantasias protetoras que reduzem a capacidade de controlarmos nosso destino. Essas concepções mágicas e míticas sempre dificultam e às vezes impossibilitam comportamentos realistas e adequados. O uso da magia sugere às pessoas um fantasioso controle de processos que elas mal são capazes de compreender, quanto mais influenciar. Na esfera dos eventos naturais, tem sido possível reduzir as ameaças pelo aperfeiçoamento cognitivo. Entretanto, no âmbito das relações humanas e sociais, temos sido menos capazes de lidar com os problemas, quanto mais nossas vidas estejam ameaçadas por forças misteriosas incontroláveis. Quanto menos objetivos, mais suscetíveis estaremos às fantasias e menos capazes seremos de enfrentar tais ameaças”. A redemocratização trouxe a tolerância, mas ainda não produziu a diversidade. E a doutrina hegemônica, a social-democracia, é fantasiosamente alheia às ameaças contemporâneas de globalização, desindustrialização, desemprego aberto e baixo crescimento.

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