A estátua de Pomona, a deusa romana dos pomares, símbolo da abundância, está fincada bem à frente do Hotel Plaza, em Nova York. Um quarto de século atrás, em setembro de 1985, representantes dos EUA, da Alemanha Ocidental, do Japão, da França e da Grã-Bretanha assinaram ali o Acordo do Plaza, que promoveu a desvalorização do dólar em 50% ante o marco e o iene. Hoje, novamente, a economia global necessita de um dólar mais fraco. Inexiste, contudo, uma vontade comum capaz de propiciar a coordenação das políticas monetárias das potências.

O ciclo de expansão encerrado pela quebra do Lehman Brothers evoluiu sob o signo do desequilíbrio. A poupança compulsória de chineses pobres financiava o consumo exuberante da classe média americana, um paradoxo que se reflete no espelho financeiro pelo colossal superávit em conta corrente da China e pelo déficit insustentável em conta corrente dos EUA. A crise em curso pode ser interpretada como uma longa correção desse desequilíbrio, com a redução do nível de consumo americano e a ampliação do consumo chinês. A China, porém, não parece propensa a reproduzir o comportamento de alemães e japoneses no Plaza.

Pequim protege a sua moeda com um zelo historicamente justificado. Yuan, a palavra que nomeia a unidade de conta do renminbi, é uma contração originada da expressão “moeda redonda estrangeira”. Introduzida no final do século 19 como mimese dos antigos pesos de prata mexicanos, difundidos a partir das Filipinas espanholas no Sudeste Asiático, o renminbi conviveu com os cartões de racionamento maoistas e só ganhou uma taxa de câmbio unificada em 1994.

Hoje, o governo chinês teme que uma apreciação cambial aqueça o fluxo de investimentos especulativos e provoque um colapso financeiro similar ao da crise asiática de 1997. O precedente da apreciação de 11% do renminbi, a partir de outubro de 2007, que gerou a falência de empresas comerciais e perda de empregos, em nada ajuda os raros defensores de uma nova tentativa. Além disso, a tese predominante no país assegura que uma forte valorização não reduziria o déficit comercial americano, mas apenas transferiria exportações para os tigres asiáticos.

Melífluos, os dirigentes chineses usam “sim” para dizer “não”. Em junho, simulando ceder às pressões de Washington, o banco central da China emitiu um comunicado ambíguo que fingia sinalizar o relaxamento dos controles cambiais. O texto carecia de substância – e o renminbi quase não se moveu. “Todos estamos concluindo que eles não acreditam que sejamos sérios”, queixou-se o senador Jack Reed ao secretário do Tesouro americano, Tim Geithner. De fato, a autoridade monetária chinesa compra dólares em ritmo alucinante, sabotando as tentativas de Geithner de produzir um choque expressivo na taxa de câmbio bilateral.

Os chineses não estão sós. Há pouco, após uma longa ausência, o banco central japonês voltou ao mercado de câmbio para vender 2 trilhões de ienes, interrompendo a trajetória de valorização da moeda. A Suíça agiu bem antes, na mesma direção, e quadruplicou suas reservas internacionais. A zona do euro é um caso à parte. O Banco Central Europeu (BCE) aferra-se ao dogma do euro forte, mas nem mesmo a máquina exportadora alemã pode conviver com a continuidade da valorização cambial dos três anos anteriores à crise global. Uma depreciação moderada ajudaria a reativar as economias mais fracas do bloco e um aumento controlado da inflação reduziria os déficits que atormentam Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália. Um relatório do FMI indica que o BCE já promove a desvalorização do euro diante do dólar.

Na falta de uma ação coordenada, aos solavancos, as intervenções unilaterais dos bancos centrais produzem um alinhamento cambial em taxas similares às vigentes há duas décadas. O cenário convida à conclusão tranquilizadora de que a economia global escapou do espectro caótico das desvalorizações competitivas. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não caiu nesse conto, como evidenciam suas declarações recentes. De um lado, persiste a anomalia central do renminbi fraco. De outro, os fluxos de capitais de curto prazo pressionam para cima as moedas de algumas grandes economias emergentes – entre as quais, notadamente, o Brasil. No lugar da correção do desequilíbrio estrutural prévio, caminha-se rumo à criação de novos desequilíbrios.

A raiz do impasse é geopolítica. O sistema monetário do pós-guerra perdeu a âncora da paridade dólar/ouro em 1973, mas conservou o norte da liderança americana, que se expressava pelo G-5 e propiciava acordos transparentes de coordenação cambial. No Acordo do Plaza, as cinco potências provaram que o leme da política podia substituir o mecanismo das paridades semifixas adotado em Bretton Woods. De lá para cá, o leme emperrou. O sistema monetário atual é um edifício heteróclito de regimes de câmbio ancorados, flexíveis e administrados, que abrange ainda uma vasta união monetária e alguns currency boards. A erosão da hegemonia americana e a ascensão da China destruíram a unidade política do centro de decisões, que se transferiu do G-5 para o G-20. Pomona, a abundância, cede lugar a Marte, a guerra.

Até agora, o Brasil opera na mesma linha de japoneses, suíços e chineses, evitando uma forte apreciação do real pelo recurso a ousadas investidas no mercado de moedas. A tática defensiva destina-se a impedir a explosão do déficit na conta corrente do balanço de pagamentos. Mas a acumulação incessante de reservas em dólares tem um custo financeiro, que logo será proibitivo. As alternativas são a redução dos juros internos, o que exige cortes de gastos públicos, e a imposição de controles sobre os investimentos estrangeiros de curto prazo, o que implica contrariar as altas finanças.

A estação de calmaria chega ao fim. Fará o próximo governo o oposto exato do que fez Lula?

Fonte: Jornal “O Estado de S.Paulo” – 30/09/10

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