Domingo, 4 de dezembro de 2016
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De volta à gramática

Com a presença de grandes especialistas da área, a ABL (Academia Brasileira de Letras) promoveu um ciclo de conferências sobre a valorização da língua portuguesa. O evento é coerente com o artigo 1º do seu pétreo estatuto, assinado por Machado de Assis, que prevê cuidados especiais com a nossa língua e a literatura nacional.

A ABL insiste na defesa da língua, da literatura e da cultura nacional como patrimônios inalienáveis dos brasileiros

No dia em que falaram os professores Cláudio Cezar Henriques e José Carlos de Azeredo, sob nossa presidência, o tema específico referiu-se à gramática, considerada a essência da linguagem.

Hoje, há uma luta surda entre gramáticos e linguistas, com evidentes prejuízos para os estudantes. Uma das consequências dessa realidade é a presença menor da literatura nas questões do Enem, um evidente absurdo, perpetrado por linguistas das universidades oficiais, contratados pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) para a formulação das provas.

Esse fato levou a Câmara dos Deputados, por iniciativa da deputada Maria do Rosário (PT-RS), a convocar uma audiência pública para tratar da matéria. Lá estivemos, como representantes da ABL, defendendo o nosso ponto de vista, que coincide com o pensamento da Casa de Machado de Assis:

“Sabedora de que as obras literárias oferecem uma possibilidade ímpar para diversificar experiências, compreender o outro, confrontar pontos de vista e ampliar ideias, bem como para refletir sobre valores, reforçar o humanismo e o pensamento crítico, a Academia Brasileira de Letras reitera que o acesso a esse universo da literatura é um direito de todos os cidadãos, um patrimônio de todos os brasileiros que não pode de nenhuma forma ser subestimado”.

Em manifestação aprovada por unanimidade pelo seu plenário, a ABL insiste na defesa da língua, da literatura e da cultura nacional como patrimônios inalienáveis dos brasileiros, alertando para a necessidade de que não se reduzam os espaços de acolhimento desses elementos no processo educacional.

Retornando ao seminário “De volta à gramática”, assistido por um grande público no Teatro R. Magalhães Jr., entendemos que não se deseja a gramática limitada a um rol de recomendações que discriminam formas corretas ou erradas, ou a uma lista de classes e respectivos rótulos, mas a gramática como o sistema que organiza as estruturas da língua no exercício de suas infinitas possibilidades significativas e de suas variadas finalidades socioculturais.

Num país em que 14 milhões de estudantes não têm acesso a qualquer tipo de biblioteca, nem mesmo às chamadas salas de leitura, manifestamos igualmente nossa preocupação com a deficiente formação de professores e especialistas, em todos os níveis, quando é sabido que o ideal seria o seu aperfeiçoamento e o necessário contato com a literatura, de modo a valorizar esse importante legado.

Fonte: Folha de São Paulo, 15/12/2015.

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