Marcos Troyjo

Em tempos de eleições, é sempre bom ressaltar que liberdade é conceito que preside a fundação da alma brasileira — e dela é indissociável, como se percebe mesmo na formação étnica do povo do Brasil.

Por um lado, liberdade, em sua vertente como ausência de coerção, era cotidiano do elemento indígena na anterioridade do Descobrimento. Conceito, destarte, do índio “livre” da civilização -, vivenciado, como que idealmente, pelo “bom selvagem”, conhecida figura da obra de Jean-Jacques Rousseau.

Por outro, liberdade povoou os sonhos do africano desterrado e introduzido no Brasil em cruel contexto de escravidão, o que só se logrou plenamente em fins do século XIX com a Lei Áurea.

Liberdade é ainda grande vetor da colonização europeia, seja no sentido de desvincular-se de amarras econômicas e políticas de uma Europa estagnada em sua mobilidade social, seja pela razoável liberdade religiosa e ideológica que se observava no Brasil, sobretudo se contrapormos tal cenário à ascensão e recrudescimento dos totalitarismos na Europa da primeira metade do século XX.

Necessário também lembrar o impacto, do ponto de vista da formação dos valores nacionais, dos princípios esposados pelos protagonistas da Inconfidência Mineira em fins do século XVIII – e a decorrente aproximação entre os conceitos de “independência” (política) e “liberdade” (de construir seu próprio destino sobre as bases da autodeterminação), o que se viu manifesto no mote Libertas Quae Sera Tamen dos inconfidentes, e eternizado na bandeira do estado de Minas Gerais.

Na mesma linha de liberdade como autonomia política, entoa-se o hino da Proclamação da República, com o refrão “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós”.

Ao longo do século XX, o tema da liberdade projetou-se a três importantes dimensões. A primeira, oriunda de princípios de filosofia de diplomacia e política externa, diz respeito à “liberdade de ser igual” no concerto das nações – o que se exemplifica pela atuação de Ruy Barbosa na II Conferência de Paz da Haia em 1907 e sua defesa pela igualdade jurídica dos estados.

A segunda tange o parentesco entre as noções de liberdade e democracia. Fez-se sentir em especial nos momentos de clausura política e em regimes de exceção, particularmente como contraponto ao movimento militar que governou o país de 1964 a 1985.

Aqui, as noções libertárias nortearam discursos por distensão, abertura política e eleições diretas para todos os níveis de governo, bem como por ampla liberdade de imprensa.

Neste Brasil do limiar do século XXI, a ideia de liberdade como valor – patrimônio ético – tem de encontrar-se espraiada por todos os níveis da vida nacional.

É liberdade de empreender e conferir maior espaço à livre iniciativa na formação da riqueza nacional. É ainda, e cada vez mais, sinônimo de liberdade de escolha.

De poder ser corretamente informado. De ser livre para tomar decisões conscientes – alicerces da cidadania, objetivo que todos os brasileiros almejam de modo a realizar o amplo potencial de desenvolvimento econômico do país e a diminuição de suas imensas – e injustas – distâncias sociais.

Fonte: Brasil Econômico, 09/10/2012

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1 comment

  1. cesar ramos

    Não há justiça nem injustiça em distãncias sociais. São circunstãncias até mesmo da liberdade. O Brasil sempre teve oportunidade de optar entre a rica e vitoriosa democracia norteamericana, e a acintosa francesa. Preferimos manter a pobreza, e com a concordância dos pobres, claro, aquinhoados com a abolição da escravatura, mas não dos empregos e remunerações paternalistas. É uma questão de burrice, apenas, não só do pessoal carente de tudo, mas também e principalmente de seus condutores, fatal e periodicamente tragados pela própria astúcia.