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A foto acima, de André Dusek, da Agência Estado, é um bom emblema do que foi o dia de ontem para o PSDB. Se esse “romance” político vai ter ou não continuidade, isso é o que veremos. O certo é que ela uma boa vereda para que o PSDB realize o que as esmagadora maioria dos “analistas” vinha dando, ou vem ainda, como improvável: vencer a disputa eleitoral de 2010, evidenciando que algo mais está em jogo nas urnas neste ano do que a aprovação ou não do governo Lula. Afinal, a tese plebiscitária é essencialmente falsa. Não se trata de uma divergência de pontos de vista, mas de condescender ou não com a mentira. Só se pode, afinal de contas, fazer o jogo do “nós” contra “eles”, do “bem” contra o “mal”, caso se endosse o discurso fraudulento do PT e de Lula de que o Brasil foi descoberto em 2003.

A foto flagra um José Serra numa expressão afetiva que não lhe é muito própria em público, adequada ao candidato que fez neste sábado o discurso da inclusão, rejeitando a falsa clivagem entre “salvadores” e “destruidores” da pátria; que prometeu, no governo, não excluir ninguém, que levou a mensagem da unidade — sem, no entanto, abrir mão de apontar os problemas do país — e um Aécio Neves efetivamente engajado no esforço de levar o PSDB à vitória. Ao menos é isso o que seu discurso expressou sem meios-tons, sem meias-palavras, sem ambigüidades.

Os jornalistas que cobrem política sabem como são as coisas no PSDB — o partido não funciona como ordem unida e não tem aquela vocação leninizante do “centralismo”, que não costuma ter nada de democrático. O mais provável é que Serra e Aécio ignorassem o discurso um do outro. E, no seu contraste, as falas também se “beijaram”. À diferença do que diz a análise de uma burocrata  da bobagem, Aécio “não roubou” a cena. Aécio fez o que dele se esperava: foi o principal destaque depois daquele que assumia a pré-candidatura. Sabia que toda a atenção estava voltada para ele. Um Aécio frio seria prenúncio de dificuldades; um Aécio engajado poderia reforçar as esperanças da oposição. E, nesse sentido, seu discurso não poderia ter sido melhor para o partido.

Como discordar de cada linha do que ele disse ali? Aquela síntese que fez do PT — que sempre disse “não” a tudo, do Colégio Eleitoral à Lei de Responsabilidade Fiscal — foi aqui lembrada tantas vezes, a última delas na quarta-feira passada, no texto DILMA NO TÚMULO DE TANCREDO: FINALMENTE, O LOBO EM PELE DE CORDEIRO.

É claro que o evento reacendeu as esperanças do tucanato de que Aécio venha a aceitar o lugar na chapa de vice de Serra, mas, para o partido e para ele próprio, isso é menos relevante agora. Seu real engajamento na campanha deixa o PT, efetivamente, muito preocupado. Para quem havia observado que ele próprio não havia reagido à tentativa do PT de seqüestrar a memória de Tancredo Neves, a resposta chegou vigorosa. Também foi um sinal importante o convite que fez para que Serra inicie por Minas a viagem pelo Brasil. O elogio a Lula em seu discurso saiu em tom militante: o melhor decisão tomada pelo atual presidente foi manter a política econômica do ex. Aquele bicho estranho a que o petismo tentou dar forma em Minas, o tal voto “Dilmasia” — ou “Anastadilma”, como sugeriu Dilma Rousseff num impressionante rasgo de criatividade — morria ali. Antonio Anastasia, governador de Minas, justiça se faça, já havia dado um pé no traseiro do estranho híbrido.

Embora se soubesse uma coisa ou outra do que Aécio pretendia dizer, o discurso surpreendeu uma parte da cobertura política, que estava ali com a pauta pronta — assim como tinham prontos os textos apontando, há 15 dias, a “virada” de Dilma no Datafolha: na imaginação desses “analistas”, era para ser uma festa miúda, constrangida, indicando a desunião tucana e das oposições. E, no entanto, viu-se o contrário. E os petistas sabem disso porque a sua rede de difamação na Internet trabalhou freneticamente para tentar pautar o jornalismo. Umas tontas e uns tontos caíram— ou prestaram serviço, sei lá eu. O discurso de Aécio desarranjou a preguiça dos observadores.

Também surpreendeu o número de pessoas presentes ao lançamento da pré-candidatura e o entusiasmo de quem estava ali. Havia real engajamento. Se ele continuará vigoroso nos próximos dias, bem, isso é que se vai ver. Que os sinais, para o PSDB, foram muito positivos, disso não se duvide.

Outra evidência de algo de bom acontecia ao PSDB em Brasília foi a reação dos petistas em São Bernardo, aquele ato ilegal promovido por sindicalistas em apoio à candidatura de Dilma. Lula decidiu fazer pouco dos lemas tucanos e distorceu miseravelmente a fala de Aécio (ver abaixo). Dilma mandou ver num discurso impressionantemente rancoroso — mais uma vez (ver post abaixo) —, tentando, a todo custo, caracterizar adversários políticos como usurpadores. Como se, numa democracia, o anormal fosse a oposição disputar o poder.

E é nesse ponto que entram, então, os motes dos dois discursos de Serra, que têm potencial, se bem trabalhados, para desarranjar o único discurso do PT. Ao dizer que o “Brasil pode mais”, o tucano, à diferença do que fazem os petistas, não tenta apagar os adversários da história. Antes, dá-lhes o devido crédito e diz ser possível ir mais adiante. Ao afirmar que  “O país é um só”, recusando as ações das “legiões do ódio”, combate na raiz o maniqueísmo sem o qual não pode haver petismo.

Quem vai ganhar? Eu não sei! Quem tem a certeza da vitória são os analistas “isentos” do PT de carteirinha escondida. Eu não sou petista nem tenho esse tipo de “isenção”. Tenho lado. E o meu lado rejeita a mentira como instrumento da política.

Não, Lula! Esta não será uma eleição fácil para ninguém.

(Publicado no blog de Reinaldo Azevedo)

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