O Globo, 17 de agosto de 2006 Cuba é uma ditadura extrema e violenta. Sem liberdade de imprensa, é muito difícil obter boa informação sobre o que se passa por lá. Jornalistas cubanos não têm a menor possibilidade de apurar e contar os fatos. Jornalistas estrangeiros, em seus veículos de origem, naturalmente podem contar, mas encontram dificuldades de apuração. Temendo a repressão, sempre presente, os cubanos não se arriscam a relatar sua situação, muito menos a fazer críticas ao regime. Mas há jornalistas estrangeiros independentes que, de uma maneira ou outra, conseguem acesso a fontes cubanas diretas, não oficiais, e assim podem passar algo além das versões oficiais. É o caso de Jon Lee Anderson, que publicou recentemente uma “Carta de Cuba” numa das últimas edições da revista “New Yorker”. Há também uma entrevista de Anderson, na edição on-line (www.newyorker. com). Essas são as informações mais aproximadas da realidade. Entre outras coisas, contam que Fidel Castro, nos últimos anos, parecia preocupado com a permanência do socialismo depois de sua morte. Esse teria sido o motivo do lançamento da Batalha de Idéias, destinada a fazer a cabeça especialmente dos jovens. Trabalhadores Sociais, instruídos em escolas especiais, são os instrumentos dessa luta, destinada a recuperar ideais socialistas. Já entre os líderes que estão substituindo Fidel na atual interinidade, parece que a preocupação maior é como controlar uma inevitável transição para algum tipo de capitalismo. Conta-se que Raúl Castro, herdeiro designado, conta com o modelo chinês (investimentos estrangeiros e o capitalismo local sendo introduzidos sob controle do governo e do partido, sem nenhuma liberdade política). O temor de Raúl e seus companheiros seria a transição estilo Leste da Europa, com a introdução simultânea de democracia política (com a extinção total do antigo regime) e da economia de mercado. Não é possível ir além disso. Para avaliar qual transição é provável, seria necessário dispor de informações mais avançadas sobre o estado de espírito da população. Alguns jornalistas estrangeiros conseguem perceber uma sensação de enfado, cansaço com o regime, Fidel e a vida difícil, na qual todo dia é preciso preocupar-se em obter comida e bens essenciais. Mas não conseguem avaliar se isso pode se transformar numa revolta, após a partida de Fidel. Hoje, parece que não, mas quando se recorda como regimes comunistas europeus, aparentemente sólidos, caíram como folhas de papel, essa hipótese para Cuba não pode ser descartada. Mesmo porque há um outro fator crucial nessa história: a comunidade dos cubano-americanos instalada ali ao lado, na Flórida. Pode ser a chave de uma transição bem-sucedida. Essa comunidade tem capital e disposição para investir numa Cuba pós-Fidel. Com o maior mercado do mundo ali ao lado – e a vontade de americanos e cubano-americanos de mostrar a superioridade do capitalismo – Cuba pode muito bem entrar rapidamente num processo de desenvolvimento acelerado. Mas a comunidade da Flórida pode ser também o fator de desastre, se prevalecer a visão mais direitista, que deseja varrer da ilha o velho regime e todos os seus quadros de uma só tacada. Eis um exemplo de conflito potencial: muitos cubano-americanos alimentam a expectativa de recuperar propriedades que foram confiscadas por Fidel. Ocorre que essas propriedades estão sendo utilizadas legitimamente. São casas nas quais as pessoas moram há dezenas de anos. São fazendas onde trabalham milhares de agricultores. Prédios onde funcionam escolas ou postos de saúde, e assim por diante. Não se pode simplesmente expulsar toda essa gente. Aliás, é exatamente o que diz a propaganda oficial – que os exilados, se voltarem, tomarão tudo dos residentes. Estes, obviamente, temem essa possibilidade. Há meios de se resolver. Em alguns países europeus, antigos donos foram chamados, mas a recuperação da propriedade confiscada passava por certas exigências, como o pagamento de impostos pelo período e indenizações aos ocupantes do imóvel. Muitos simplesmente desistiram. Tudo considerado, vai depender do bom senso e da moderação dos dois lados, o pessoal da Flórida e os cubanos da ilha, inclusive os atuais líderes. Se estes reagirem à transição com feroz repressão, podem levar a uma guerra civil. A população cubana não merece outro sofrimento. Outro fator de risco é o governo Bush – se entrar na história do mesmo jeito que entrou no Iraque, é desastre na certa. A esperança é que erros passados sejam um estímulo a abordagens moderadas. A ver.

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