O Globo, 10 de agosto de 2006 Cuba vai cair no capitalismo, como ocorreu com todos os regimes socialistas, à exceção de dois: o da própria ilha e o da Coréia do Norte. Ambos, aliás, têm um curioso ponto em comum — o comunismo hereditário. Fidel tenta transmitir o poder a seu irmão, Raúl. O presidente Kim Jong-Il herdou o governo de seu pai. A queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, é o símbolo da virada, mas antes disso muitos países socialistas já estavam em marcha para a economia de mercado. Na China, por exemplo, Deng Xiaoping iniciou as reformas ainda em 1978. No Vietnã, a doi moi — a renovação — começou em 1986, contemporânea da perestroika russa. Passado todo esse período, pode-se dizer, simplificando, que há três modelos de transição do socialismo real (ou comunismo) para o capitalismo. Nos três, há corrupção — uma fatalidade. Sempre que o empreendimento privado, nacional ou estrangeiro, depende de uma licença concedida pelo burocrata do Partido, a coisa dá em roubalheira. Mas há níveis maiores ou menores de corrupção, dependendo do modo de transição. O pior de todos foi o da falecida União Soviética. O pessoal do partido ficou com as maiores estatais privatizadas e as melhores oportunidades de negócios, tudo a preço de banana. E também manteve o poder político no novo regime, chamado de democrático, com eleições nacionais, mas sem imprensa livre e sem liberdade partidária. O melhor exemplo disso é o presidente Vladimir Putin, ex-chefe da polícia secreta soviética. Como notaram observadores, os russos estragaram o socialismo e agora estão estragando o capitalismo. Acontece da mesma forma nas outras ex-repúblicas soviéticas. O segundo modelo, claro, é o da China. O Partido Comunista e o governo comandam a introdução dos investimentos privados, basicamente feitos pelas companhias estrangeiras. É um passo obrigatório para países muito atrasados, sem capital local suficiente, sem tecnologia e infra-estrutura, e, também, naturalmente, sem empreendedores privados nacionais. Estes acabam aparecendo no decorrer do processo, que continua, entretanto, sustentado pelo investimento direto estrangeiro. Não há democracia política. Essa combinação de ditadura coletiva, do partido, com economia de mercado, que requer a liberdade de empreendimento, obviamente está funcionando na China e em outros países, como o Vietnã. Isso, claro, quando se consideram os indicadores econômicos. Há forte crescimento da produção, da renda e do emprego. Quase 500 milhões de chineses já deixaram a zona da pobreza desde o início das reformas. No Vietnã, o número de pessoas vivendo com menos de um dólar por dia caiu de 50% da população, em 1990, para menos de 10%, hoje. Na teoria clássica do capitalismo, a liberdade individual e, pois, a democracia são requisitos essenciais do regime — justamente chamado economia de livre mercado. As instituições democráticas formam a condição necessária para garantir a propriedade privada e a liberdade individual de empreender, ganhar dinheiro e acumular patrimônio. Mas, até aqui, pelo menos, os capitalistas do mundo todo têm se conformado com as garantias concedidas pelas autoridades chinesas, mesmo quando são docemente constrangidos a aceitar sociedades com estatais e/ou quadros do partido. Não se sabe, entretanto, até onde vai o modelo, na medida em que a população chinesa enriquece, torna-se classe média, com acesso cada vez maior à educação e progressivamente exposta ao mundo das democracias ocidentais. Pode ser que ocorra algo como o que se passou na Coréia do Sul, cuja arrancada para o desenvolvimento também se deu com uma ditadura política, embora não comunista. O país alcançou a democracia há pouco tempo, por pressão das classes médias formadas no processo econômico. Mas a China é muito maior, mais complexa, e a ditadura, muito mais forte. A ver. O terceiro modelo de transição socialismo/capitalismo é o da Europa do leste: Polônia, República Tcheca etc. A virada é completa, com a introdução simultânea do capitalismo e da democracia política — aliás, requisito para a entrada na União Européia. Não há caça às bruxas contra os quadros do velho regime, mas estes precisam se reagrupar, formar novos partidos e assim voltar à disputa política. Não raro, ganham eleições, para governar no novo sistema. Vão bem esses países, sobretudo os que já conseguiram sua integração à União Européia. E, então, como será a inevitável transição cubana pós Fidel? Eis uma boa especulação para uma próxima coluna.

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