Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

No desaguar do impeachment

Estamos vivendo a História. O iminente afastamento da ilustre inquilina do Planalto faz da abstração teórica do impeachment um fato político concreto e pulsante. O precedente de Collor, embora válido, passa longe da magnitude do presente caso. Lá, havia um firme presidente egocêntrico, filhote de um partido inexpressivo, que pensava, arrogantemente, que o Congresso lhe era servil; aqui, uma presidente insegura e inábil, criada por obra de um líder político messiânico, pertencente ao maior partido de esquerda brasileira. As circunstâncias são, portanto, completamente diferentes. E tais diferenças mudam tudo.

Mudam tanto, que o Brasil está há mais de ano parado, navegando no mundo ao sabor das ondas. Temos uma presidente que não governa; um parlamento que não legisla; e um Supremo que age emergencialmente para apagar o fogo criado pela inação dos demais poderes. Ora, o impeachment é exatamente isso: caos institucional. Nesse quadro tumultuado, exsurge a certeza de que — como estava — não dava mais para continuar. O descontrole nas contas públicas, o inchaço desmedido da máquina, o desrespeito ao dinheiro do povo, o desapreço ao império da lei, uma estrondosa inabilidade política e uma insuperável incompetência governamental desaguaram na corrente sem volta do impeachment presidencial.

No entanto, a assunção de Michel Temer, antes de um milagre, é a solução possível. E, dentro das possibilidades, o novo governo terá que conduzir uma transição factível para as eleições de 2018. Não há dúvida de que o impeachment trará uma imediata reversão das expectativas junto aos agentes do mercado. Acontece que, em pouco tempo, a realidade baterá à porta, cobrando o preço dos graves erros do passado. Dias difíceis virão, mas é justamente na dificuldade que os grandes líderes se erguem e as nações se afirmam.

A hora é de serenidade. Os desafios que virão não são intransponíveis, mas exigirão a união da sociedade brasileira em torno de consensos mínimos. Quais e como serão construídos tais consensos são as possibilidades de nossa oportunidade histórica. Vens ou deixarás a vida passar?

Fonte: “Zero hora”, 12 de maio de 2016.

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