Paulo Guedes

O diabo sabe para quem aparece, diz a sabedoria popular. Inferniza apenas os povos que se deixam enfeitiçar por superstições ideológicas e pelas promessas ilusórias de um paraíso na Terra. Povos que vendem sua alma em troca de facilidades no presente e descobrem depois que hipotecaram o futuro de seus filhos.

Qualquer semelhança entre a desgraça política e a tragédia econômica que arruínam os norte-coreanos, cubanos, venezuelanos e argentinos não é mera coincidência. São manifestações em diferentes graus de um mesmo fenômeno de empobrecimento por ignorância. Da mesma forma que muitos infelizes eram queimados vivos como bruxos em épocas de pouca luz e bastante ignorância, quase cem empresários são hoje brutalizados por um presidente venezuelano despreparado em matéria econômica. Tão previsíveis os infortúnios quanto primários os equívocos.

As filas de acesso às prateleiras vazias em supermercados, a caça policial aos empresários, os congelamentos de preços e o desabasteci-mento generalizado são todos demônios de nossa triste memória desde que o Plano Cruzado abriu os portões do inferno em busca de uma ilusória estabilização indolor.

Qualquer semelhança entre a desgraça política e a tragédia econômica que arruínam os norte-coreanos, cubanos, venezuelanos e argentinos não é mera coincidência

Políticos pouco preparados em matéria econômica e economistas muito preparados em assuntos políticos patrocinaram desde então a mais longa sequência histórica de malsucedidas tentativas de estabilização. Mergulhamos na moratória externa, no sequestro da poupança, na estagnação econômica e na hiperinflação em câmera lenta, tornando o cotidiano dos brasileiros tão insuportável quanto o inferno do socialismo bolivariano. Os desafortunados planos Cruzado, Bresser, Verão, Collor I e Collor II, combatendo o sintoma “inercial” do fenômeno inflacionário, além de todos os males passados que nos causaram, ameaçam agora nosso futuro.

O Supremo Tribunal Federal (STF) examina a partir desta semana a constitucionalidade das leis decretadas em cada um desses planos econômicos e, por consequência, da correção monetária das aplicações na caderneta de poupança, Se no julgamento do mensalão a exemplar atuação do STF reafirmou a independência do Judiciário, revertendo uma espiral de degeneração política, o julgamento da correção dos depósitos de poupança exigirá o mesmo discernimento para evitar uma nova descida ao inferno econômico.

Fonte: O Globo, 25/11/2013

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