Sábado, 3 de dezembro de 2016
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Desemprego e renda familiar

A taxa de desemprego atingiu 11,3% no segundo trimestre de 2016, um aumento de 4,5 pontos percentuais em relação ao mesmo trimestre de 2014, quando era de 6,8%. Isso significa que mais de 4 milhões de pessoas passaram a procurar emprego sem sucesso. No entanto, a renda familiar média do trabalho, incluindo no denominador aqueles que não trabalham, declinou apenas 3,7% nesse mesmo período. Como será que podemos explicar esse fato? Por que será que a grave crise atual não provocou uma redução mais forte no bem-estar das famílias brasileiras?

Isso ocorre por três razões principais. A primeira é que os domicílios atingidos mais fortemente pelo desemprego são uma proporção relativamente pequena de todos os domicílios brasileiros. A segunda explicação é que a maior parte dos novos desempregados são jovens e o trabalho dos jovens não é a principal fonte da renda familiar. Por fim, uma parte do aumento da taxa de desemprego é reflexo do aumento da procura por trabalho entre as pessoas que antes estavam inativas, ou seja, estavam estudando em tempo integral ou cuidando dos afazeres domésticos.

Para o cálculo da renda familiar per capita não importa se a pessoa não está trabalhando porque está desempregada ou inativa, o que vale é que ela não ganha salário, ou seja, não contribui para a renda familiar. Assim, nas famílias em que as pessoas saíram da inatividade para procurar emprego não há alteração efetiva na renda per capita, apesar dessas pessoas contribuírem para o aumento da taxa de desemprego agregada.

Mas quantas famílias estão sendo efetivamente atingidas pela crise? A proporção de famílias com pelo menos uma pessoa desempregada passou de 9% para 14% nos últimos dois anos. Como temos aproximadamente 70 milhões de famílias no Brasil, isso significa que mais de 3,5 milhões de famílias não tinham pessoas desempregadas antes da crise e passaram a ter agora. Porém, ao mesmo tempo, a proporção de famílias com pelo menos uma pessoa inativa declinou de 63% para 61%, ou seja, caiu dois pontos. Assim, a proporção de famílias que passaram a ter pelo menos uma pessoa desempregada ou inativa com a crise aumentou somente 1 ponto percentual, passando de 67% para 68% (algumas famílias têm tanto membros desempregados como inativos).

Mas como será que a crise está afetando os chefes de família, que são os que mais contribuem para a renda familiar? Em todas as crises o maior aumento de desemprego ocorre sempre entre os jovens, que contribuem menos para a renda familiar total. No mercado de trabalho os jovens funcionam como uma válvula de ajuste, indo procurar emprego quando a renda familiar estaciona e voltando aos estudos em tempo integral quando a economia volta a crescer. A recessão atual difere das anteriores porque o desemprego também está atingindo diretamente os chefes de família. Mas os números envolvidos ainda são pequenos frente ao tamanho da população brasileira.

A proporção de domicílios com chefes desempregados era de 2% antes da crise e passou para 4% agora. Assim, 1,4 milhão de famílias foram mais gravemente afetadas pela crise porque estão tendo uma redução mais forte da renda familiar oriunda do trabalho. Apesar do número absoluto impressionar, isso representa apenas uma pequena parte do número total de famílias brasileiras, por isso o efeito sobre a renda familiar per capita média da economia é reduzido. Vale notar que para as famílias diretamente afetadas o desemprego representa um enorme custo social e psicológico, que não deve ser menosprezado.

Assim, o bem-estar das famílias brasileiras é bem mais afetado pelo salário real médio da economia do que pela taxa de desemprego. E o salário médio na economia brasileira tem caído pouco frente à gravidade da crise. Nos últimos 2 anos, o salário caiu apenas 3%, um pouco menos do que a queda da renda familiar per capita do trabalho. Mas isso não foi sempre assim. Entre 1998 e 1999 (época da maxidesvalorização do real) o salário real caiu 8% em um único ano, ao passo que entre 2002 e 2003 a queda foi de 7%. Por que será que os salários estão respondendo menos hoje em dia à deterioração do mercado de trabalho?

Aqui também há algumas possíveis explicações. A principal delas está relacionada com a regra de reajuste do salário mínimo. Desde 2007 o salário mínimo é corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do ano anterior mais a variação do Produto Interno Bruto (PIB) de dois anos antes. Assim, nos últimos 10 anos o valor real do salário-mínimo cresceu muito mais do que o salário médio ou a inflação. Isso fez com que a parcela de trabalhadores que ganha entre 1 e 2 salários mínimos aumentasse muito. Assim, como a variação do salário mínimo está protegida da recessão e uma grande parcela dos trabalhadores recebe o salário mínimo, os salários reais médios caem menos durante a recessão hoje em dia do que no passado recente.

Em suma, a renda média do trabalho nas famílias brasileiras depende mais da variação do salário real médio do que da taxa de desemprego. Além disso, o salário real médio varia menos com o ciclo econômico porque grande parcela dos trabalhadores recebe um salário próximo do mínimo, que está protegido da inflação. Assim, o bem-estar das famílias brasileiras declina menos em períodos recessivos hoje em dia do que no passado.

Fonte: “Valor econômico”, 19 de agosto de 2016.

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