Domingo, 4 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Desemprego em massa

O que seria a “sarneyzação” do segundo mandato de Dilma Rousseff? A presidente teria o apoio político necessário para ficar no cargo, mas não o suficiente para aprovar medidas de ajuste fiscal e reformas reclamadas pela economia. Nos três anos restantes se repetiriam as inócuas batalhas travadas em 2015, quando a paralisia do Executivo e a inércia do Congresso resultaram no agravamento da recessão e no aumento da inflação. Com Sarney, a mesma sensação de desgoverno. De muito mandato para pouca capacidade. O sentimento de que nada há a esperar e de que tudo será tempo perdido. Apenas o sintoma que se ergue agora ameaçador é o desemprego em massa, à diferença do que experimentamos com o virtual colapso antecipado do governo Sarney, em que a síndrome de ilegitimidade na política e a perda de credibilidade na economia se manifestaram sob a forma de hiperinflação.

A presidente perdeu oportunidade ímpar de atravessar uma “ponte para o futuro”, endossando o “Plano Temer”. Esse punhal com que teriam tentado atingi- la seria desviado contra o peito dos supostos conspiradores, pois a responsabilidade pela condução do plano e o ônus político de sua aprovação no Congresso seriam do PMDB, enquanto o PT lhe pediria apoio para vetar algumas das propostas. Mas Dilma preferiu reafirmar seu controle da economia patrocinando a dócil e frágil dupla Tombini/ Barbosa, e terá de encaminhar agora suas propostas buscando apoio do PMDB após uma interferência direta em eleições internas para disputa da liderança do partido na Câmara.

Tudo isso, aliado ao despreparo de seu próprio partido quanto à necessidade das reformas, torna bem menos provável uma reversão da crise. Mas pode ser que o desemprego em massa em 2016 consiga persuadir o PT quanto à conveniência da flexibilidade dos acordos salariais em lugar da nefasta rigidez de uma obsoleta legislação trabalhista. Pode ser que o governo reconsidere a indexação dos salários mais elevados no setor público, que não sofre o flagelo do desemprego. E pode ser também que se reavaliem reajustes automáticos de gordas aposentadorias, ante o colapso previdenciário que se anuncia. Ou pode ser que o desemprego em massa derrube o governo, colocando a opinião pública na base da pirâmide a favor do impeachment.

Fonte: O Globo, 22/02/2016.

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