Desemprego e política

A taxa de desemprego começou a subir e deve se elevar mais. A taxa de ocupação recua desde o início de 2013 e tende a seguir este movimento, em função do quadro recessivo em curso. A economia ainda não bateu no “fundo do poço” e sofre choques adversos, como as consequências da Lava-Jato. Infelizmente o ajuste do mercado de trabalho é essencial para o equilíbrio macroeconômico, no caso, para o combate à inflação.

A travessia poderá ser bastante difícil. Mas quanto maior a flexibilidade de salários, menor será o sacrifício em termos de aumento do desemprego, e vice-versa. Em outras palavras, a natureza do necessário ajuste do mercado de trabalho importa para o resultado final.

Determinar o quanto a taxa de desemprego vai subir, não é tarefa fácil, pois isso depende não apenas da taxa de ocupação – esta uma pouco mais previsível -, mas também da taxa de desocupação- esta influenciada pela procura por emprego, que por sua vez é afetada por muitas variáveis que são de difícil (se não impossível) previsão.

Com salários crescendo em ritmo mais moderado, a taxa de desemprego tenderia a subir menos, com menos demissões na economia

A procura por emprego é sensível a questões estruturais – como a decisão dos jovens de estudar mais -, bem como a fatores conjunturais/cíclicos – como a expectativa de renda (quanto maior a renda, maior a procura) e o grau de desalento (quando o custo de procurar emprego não é compensado pela probabilidade de encontrá-lo). Um outro fator passou a influenciar esta variável no Brasil, que são as distorções causadas por algumas políticas públicas que desincentivam a procura de trabalho. Regras de benefícios previdenciários, financiamento estudantil e políticas de transferência de renda seriam exemplos de políticas cujos excessos acabaram reduzindo a procura por trabalho.

Difícil dizer qual o efeito líquido destes fatores acima sobre a procura por emprego daqui por diante. Será que o aumento do desemprego será maior ou menor do que o esperado em função desses fatores?

Independentemente da resposta, o fato é que para a atividade econômica e o bem-estar social, quanto mais flexíveis forem os salários, melhor. Com salários crescendo em ritmo mais moderado, a taxa de desemprego tenderia a subir menos, com menos demissões na economia.

Interessante notar que, no período recente, a taxa de ocupação aparentemente caiu mais do que a dinâmica da atividade econômica sugeria. Vale a pena refletir se isso não seria consequência dos ajustes salariais exagerados que promoveram ganhos reais muito acima dos ganhos de produtividade no período.

No sentido contrário, no período 2001-03, a taxa de desemprego manteve-se elevada, mas não disparou. É provável que a contenção (e até queda em alguns momentos) de rendimento nominal tenha contribuído para este resultado.

Para 2015, há prós e contras. Por um lado, há um grande complicador: o expressivo reajuste salário mínimo (8,8% nominal) em um contexto recessivo, sendo que em torno de 25% dos salários estão atrelados ao ajuste do mínimo.
Por outro lado, há um importante elemento no horizonte, que é a clara perda de fôlego do setor de serviços, que é responsável por 70% da geração de empregos.

O faturamento real do setor já veio encolhendo ao longo de 2014. No passado o setor conseguia absorver ajustes salariais robustos, pois ganhos de produtividade decorrentes da agenda microeconômica do primeiro mandato de Lula beneficiaram particularmente o setor; agora não mais. Portanto, daqui para frente, é bastante possível que os empresários do setor sejam mais conservadores nas concessões de reajustes salariais, à luz do recuo do faturamento real em curso.

Este possível cenário de relevante desaceleração de ajustes salariais e talvez queda de salário real abriria espaço para uma alta mais modesta do desemprego e uma volta mais rápida do crescimento. E a inflação, tão castigada pela rigidez da inflação de serviços e salários, poderá ceder.

Parece haver luz no fim do túnel, ainda que não muito forte e condicionada à política fiscal.

Este cenário descrito dependerá do sucesso do ministro Levy em recuperar a âncora fiscal da economia, condição central para o efetivo controle da inflação. Lembrando que a política fiscal tem impacto mais expressivo no chamado setor não-comercializável (como serviços), podendo contribuir bastante para o recuo da inflação de salários.

Com inflação teimosa e desancorada, torna-se muito mais difícil evitar ajustes salariais robustos. A confiança de que a inflação irá recuar poderá reduzir o ímpeto dos ajustes salariais.

Resumindo, mais importante que a magnitude do aumento do desemprego, este de difícil previsão, será o grau de flexibilidade de salários, sendo que o restabelecimento da âncora fiscal e a perda de ímpeto do setor de serviços poderá ter importante papel.

O ministro tem pressa, pois os efeitos do ajuste fiscal demoram a se materializar. E não existe sucesso pela metade. Se o ajuste for tímido, insuficiente para reduzir a inflação de salários, o país corre o risco de ficar com o ônus sem receber o bônus do ajuste.

A presidente Dilma confirmou apoio ao ministro Levy e assumiu a “paternidade” do ajuste fiscal. E o Congresso? Teremos respostas populistas aos protestos e ao aumento do desemprego que está no radar, ou prevalecerá o compromisso com a governabilidade?

Fonte: Broadcast, 17/3/2015

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