Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Desglobalização e barbeiragens internas machucam mais do que a China

Parte importante da atual onda de incertezas vindas da China se origina das complexas intersecções entre a economia financeira e a economia real.

Por um lado, temores quanto a um estoque de dívidas na China que já atingem US$ 28 trilhões (280% do PIB chinês). Trata-se uma proporção maior do que a observada nos EUA ou na Itália. É também grande a preocupação quanto à qualidade das dívidas – que não se enquadram nos mesmos critérios formais de concessão de crédito dos sistemas bancários do Ocidente.

Por outro, a China continua como maior nação comerciante do planeta. Mesmo com todas as oscilações da Bolsa de Xangai, a China ainda terá em 2015 o maior crescimento percentual dentre as dez maiores economias. Em termos de valores absolutos, os chineses só investem menos que os norte-americanos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.

Muito se atribui à China e ao suposto esfriamento de sua economia um impacto determinante no fim do “ciclo dourado” das commodities. Os números mostram, no entanto, que, em número de toneladas exportadas, a demanda chinesa continua vigorosa como em anos anteriores.

O Brasil, por exemplo, exportou mais toneladas de soja e minério de ferro à China no primeiro semestre de 2015 do que o fez no mesmo período em 2014, embora, não há dúvida, os valores expressos em dólares apontam para uma receita exportadora menor.

A situação é semelhante nas pautas bilaterais de comércio com a China de muitos de seu fornecedores latino-americanos de outras matérias primas agrícolas ou minerais. Isso mostra que a proliferação de fontes de suprimento, bem como excedentes produtivos, são talvez de maior importância para a desvalorização relativa das commodities do que o arrefecimento da economia chinesa.

Mas talvez haja uma força ainda mais determinante no desempenho da China e dos demais “emergentes”. Trata-se da “desglobalização” que perpassa as relações internacionais – sobretudo desde a Grande Recessão iniciada em 2008.

Essa desglobalização originou-se de uma série de políticas protecionistas de comércio não apenas no mundo emergente, mas também nos EUA, Europa e Japão.

Tais medidas foram ademais acompanhadas de instrumentos de política industrial e de compras governamentais que reinauguraram, em nome de supostas ferramentas “contracíclicas”, uma nova era de nacionalismos econômicos – ou melhor, de “individualismos nacionais”.

O resultado não poderia ser outro: um pronunciado subdesempenho da economia global e, mesmo no caso dos países do hemisfério norte, uma recuperação que deixa ainda a desejar.

A “globalização profunda” que surgiu com o fim da Guerra Fria foi de imensos benefícios para uma economia orientada a exportações como a China.

Agora, a “desglobalização”, que mantém contidos os fluxos globais de comércio, complexifica a conversão suave do modelo de crescimento chinês para um formato mais baseado em consumo. Dificulta também o aumento do perfil de financeirização da economia chinesa.

A grande indagação quanto ao estado de saúde da economia global nos próximos dias não virá, contudo, da China, mas de como o FED responderá a um cenário externo mais desafiador.

Talvez o banco central norte-americano não consiga, como parecia ser sua inclinação, “normalizar” as taxas de juros – próximos de zero já há muito tempo.

Quanto ao Brasil, esses questionamentos globais não podem fornecer novos bodes expiatórios. Nossas incompetências e equívocos internos são muito mais influentes sobre nossa subperformance do que os ventos adversos da China ou das tendências desglobalizantes.

Fonte: Folha de S. Paulo, 26/8/2015

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