Domingo, 4 de dezembro de 2016
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A desigualdade começou a subir

O Brasil é um país bastante desigual. Essa desigualdade tem sua origem no fato de que a maioria da população brasileira ficou excluída do nosso sistema educacional até meados do século XX. Nos últimos 15 anos, porém, o processo de inclusão social que houve no Brasil fez com que a desigualdade declinasse continuamente. Será que esse processo está chegando ao fim?

A figura abaixo utiliza dados da Pnad Contínua do IBGE, que abrange todas as regiões do país, para mostrar que o salário médio dos trabalhadores qualificados (com ensino superior) aumentou significativamente com relação ao dos não qualificados (analfabetos) entre o segundo trimestre de 2014 e o de 2015, depois de continuar declinando entre 2012 e 2014. Por que será que isso ocorreu?

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O diferencial de salários entre trabalhadores qualificados e não qualificados depende da oferta e da demanda por pessoas com mais educação. No Brasil dos anos 80, como somente uma pequena porcentagem das pessoas tinham ensino médio ou superior, o prêmio para os que alcançavam esses níveis de ensino era bastante elevado. Com o aumento da parcela de pessoas com ensino médio e superior, o diferencial salarial associado a esses níveis de ensino começou a declinar. Esse fenômeno é positivo, já que geralmente as pessoas com mais educação são mais produtivas e com isso a economia cresce e os salários de todos os trabalhadores aumentam. Além disso, a desigualdade cai.

Mas a desigualdade também depende da demanda por trabalhadores com diferentes níveis de educação. Se o crescimento econômico num país é liderado por empresas inovadoras, que investem em P&D e inovam nos seus processos e produtos continuamente, a demanda por trabalhadores qualificados aumenta e os diferenciais de salários associados à educação aumentam. Isso sinaliza para todos que há necessidade crescente de mais trabalhadores educados. É o que tem ocorrido nos EUA, por exemplo. Mas, no caso brasileiro tem acontecido o contrário.

Nosso crescimento foi puxado pela expansão de emprego nas empresas mais tradicionais, situadas no setor de comércio e serviços básicos (cabeleireiro, por exemplo). Isso ocorreu porque os setores mais avançados da economia ficaram paralisados nos últimos anos, apesar de vários programas de incentivos do governo federal. Enquanto isso, os aumentos no salário mínimo e os recursos vindos da China fizeram com que a demanda por produtos de comércio e serviços por parte das classes mais baixas aumentasse muito. Isso aumentou ainda mais o salário dos trabalhadores menos qualificados, já que havia uma disputa por esses trabalhadores. É o que estava ocorrendo com as empregadas domésticas, por exemplo. Assim, a desigualdade de renda declinou ainda mais a partir de 2001.

Entretanto, para que todo esse processo de inclusão social fosse sustentável, seria necessário que a produtividade da economia aumentasse continuamente. Afinal, não é possível sustentar um crescimento contínuo dos salários e emprego sem que haja um aumento da quantidade produzida por cada trabalhador como contrapartida. Caso contrário, quando o desemprego fica muito baixo, os preços começam a subir.

Esse foi o principal problema da nossa economia. Como nossa empresas não mudaram seus métodos de produção nem suas práticas gerenciais, a produtividade praticamente não cresceu, os preços subiram e os juros começaram a subir para debelar a inflação. Isso provocou a desaceleração da economia, que demorou para atingir o mercado de trabalho, que continuava “embalado” pela expansão dos últimos anos. Isso só foi acontecer nesses últimos 12 meses. Mas a crise chegou com força.

A taxa de desemprego entre os trabalhadores menos qualificados aumentou 2 pontos percentuais nos últimos 12 meses e ainda mais entre os mais jovens. Isso fez que o salário médio desses trabalhadores declinasse 4% em termos reais entre 2014 e 2015, ao passo que os salários dos trabalhadores mais educados permaneceu constante, já que eles normalmente ocupam posições de gerência e direção. Desta forma, a queda recente do poder de compra da população brasileira passou a afetar mais do que proporcionalmente os trabalhadores menos qualificados, o que aumentou a desigualdade no mercado de trabalho. Muito provavelmente a pobreza também deve ter aumentado nesse período.

Nessa situação, o aumento de salário mínimo que ocorrerá no início do ano que vem provavelmente não será suficiente para diminuir a desigualdade e poderá aumentar ainda mais o desemprego e a informalidade.

Em suma, o nosso processo de inclusão social, que aumentou o padrão de vida de milhões de brasileiros e que serviu de exemplo para o mundo, parece estar chegando ao fim. A raiz disso reside na falta de crescimento da produtividade nos setores de servicos e comércio, além da própria indústria, que dariam sustentabilidade para esse processo. Os culpados por esse fracasso são os suspeitos usuais: alto custo Brasil, excessiva proteção para nossa indústria, políticas de incentivos equivocadas, baixa inserção internacional, infraestrutura ruim e impostos elevados.

Moral da história: é possível sustentar um processo de inclusão social a partir de uma situação de desemprego alto durante alguns anos, mas sem crescimento da produtividade esse processo sempre chega ao fim, mais cedo ou mais tarde.

Fonte: Valor Econômico, 16/10/2015.

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