Desindustrialização, Doença Holandesa e outras bobagens

Desindustrialização e Doença Holandesa são duas expressões caras aos economistas de esquerda. Uma rápida pesquisa com essas palavras no Google mostra diversos estudos e trabalhos “científicos” a respeito, repletos de gráficos e tabelas, a maioria deles patrocinada por entidades como FIESP, CNI e congêneres. Trata-se, é claro, de um importante nicho do pensamento nacionalista e protecionista, utilizado amiúde para defender interesses privados junto ao governo. Não por acaso, é também no setor industrial que se concentra boa parte do sindicalismo organizado.

Os pleitos dessa turma não costumam variar muito. Geralmente seus alvos prioritários são as ditas políticas industriais – focadas em subsídios e isenções fiscais – e protecionistas – lastreadas por controles cambiais e barreiras alfandegárias/tarifárias. O argumento de fundo é sempre a criação e manutenção de empregos domésticos, mas a real intenção dos lobistas é a transferência de renda de consumidores para produtores ineficientes.

Tais políticas, por desprezarem e distorcerem os sinais de preço e lucro do mercado acabam prejudicando e retardando o processo da destruição criadora. O capitalismo é um sistema complexo e evolutivo, cujo principal elemento propulsor é o avanço tecnológico, do qual decorrem, de forma contínua, novos bens de consumo, novos métodos de produção ou transporte, novos mercados e novas formas de organização. Segundo Schumpeter, a concorrência leva a um constante processo de inovação que, por sua vez, provoca a obsolescência de velhas estruturas. É no interior desse processo ininterrupto de destruição e criação que precisam viver (e adaptar-se) empresas e trabalhadores.

No curto prazo, esse processo, combinado com a utilização em larga escala das chamadas vantagens comparativas, possível principalmente em função do avanço acelerado da globalização, causa algum desemprego localizado e temporário, porém amplamente compensado pelos benefícios de longo prazo. Tentaremos demonstrar empiricamente, através da história econômica norte-americana, como o argumento esquerdista é falacioso.

O gráfico abaixo(*) mostra a evolução da população economicamente ativa na agricultura norte-americana desde 1800 até hoje.

Reparem que em 1790, 90% dos trabalhadores estavam no campo, enquanto em 2000 somente 2,6% permaneciam nesse setor. Ao contrário do que se poderia imaginar, no entanto, graças às novas tecnologias e ao incrível incremento da produtividade, a produção de alimentos naquele país nunca foi tão grande, sem que tenha havido aumento da taxa de desemprego no período, pois a longo-prazo é natural que haja a realocação da mão-de-obra, não apenas entre empresas, mas principalmente entre setores.

O mesmo raciocínio vale para a indústria. Como se pode ver pelo gráfico abaixo, o volume de mão-de-obra empregado na indústria americana vem caindo ao longo do tempo, tal como ocorreu no setor agrícola. Se em 1940 o setor industrial absorvia cerca de 30% dos trabalhadores daquele país, hoje em dia esse número é menor que 9%.

A pergunta que se poderia fazer é: o que aconteceu com a produção, em vista dessa queda acentuada da mão-de-obra? Por mais estranho que possa parecer a alguns, a produção industrial continuou crescendo sem parar e hoje, ainda é a maior do mundo, praticamente duas vezes maior que a chinesa e dez vezes maior que a brasileira (veja gráficos abaixo).

Embora a participação do setor industrial no PIB norte-americano venha caindo ao longo do tempo (de 26% em 1953, para 13% em 2007), a produção total, em termos nominais, nunca foi tão elevada.

A revolução tecnológica, tanto no campo quanto na indústria, certamente criou algumas situações difíceis para muitos. É provável que, durante um certo tempo, muitas pessoas tenham perdido seus empregos e precisaram adaptar-se para desempenhar outros ofícios. No entanto, no longo-prazo, as revoluções tecnológicas, os ganhos de produtividade e o incremento do comércio mundial trouxeram enormes benefícios.

Reparem no gráfico abaixo a impressionante tendência de queda dos custos de aquisição de alimentos nos EUA, em relação à renda disponível. Uma família americana média gasta hoje em dia somente o equivalente a 9,6% da renda para suprir as suas necessidades alimentares, contra perto de 24% em 1940. É claro que essa enorme redução só foi possível por conta das revoluções tecnológicas na agricultura e na indústria.

 

O que dizer, então dos produtos de outras indústrias? Falemos primeiramente da indústria do vestuário, importantíssima para qualquer sociedade, mas principalmente naquelas de clima mais frio.

Três por cento (3%) da renda líquida é quanto as famílias americanas gastam, em média, para suprir as suas necessidades com as vestimentas. O que pouca gente imagina é que o comércio de roupas nos Estados Unidos é quase que totalmente dominado por produtos importados. Quem costuma viajar aos EUA sabe que é dificílimo encontrar uma roupa ou sapato produzidos domesticamente. É tudo “made-in qualquer lugar”, geralmente no dito “Terceiro-Mundo”. Os produtos são baratos porque a concorrência é enorme e, principalmente, porque as tarifas aduaneiras são reduzidíssimas.

Essa revolução (destruição criativa) na indústria e na agricultura, desencadeada pela descoberta de novas tecnologias e pelo crescente processo de globalização, provocou um verdadeiro êxodo de mão-de-obra para outras atividades, especialmente para os setores de serviçoes, de comércio, financeiro e de alta tecnologia. O trabalho nos EUA é hoje muito menos desgastante e muito mais cerebral. O mais importante, no entanto, é que a renda per capita do povo americano não parou de subir e, junto com ela, o bem estar geral (veja no gráfico acima a evolução da renda per capita real, desde 1930).

Mas riqueza não é medida pelo volume de dinheiro. Uma das formas de fazer isso é medir a quantidade de trabalho necessário para adquirir bem estar, vale dizer, produtos e serviços que nos ajudarão nisso. Reparem como a quantidade de horas de trabalho necessárias para adquirir diversos produtos (eletrodomésticos) vem caindo naquele país, de 1970 para cá. Em 1973, uma família americana de classe média precisava trabalhar, por exemplo, 89,8 horas para adquirir uma geladeira, o que hoje ela faz com apenas 22,7 horas trabalhadas. (veja a tabela acima).

Não é à toa, portanto, que a quantidade de residências providas destes equipamentos chega a quase 100% em alguns casos, como geladeira, fogão, TV em cores e até automóveis, mesmo entre as famílias mais pobres.

Como se pode ver, embora os norte-americanos importem boa parte dos produtos que consomem e desenvolvam rotineiramente novas tecnologias que causam desemprego temporário, o padrão de vida médio daquele povo está bem acima do de países como o Brasil, ainda preocupado com “substituições de importações”, “doença holandesa” e outros quejandos protecionistas e intervencionistas sem sentido.

A história dos Estados Unidos comprova que, embora aquele seja um país onde a destruição criadora é farta, as tarifas aduaneiras bem baixas e a regulação do mercado de trabalho relativamente frouxa, o trabalhador americano, de uma forma geral, é muito mais qualificado que a média mundial e sua produtividade bem superior, o que o torna também muito mais próspero.

(*) Todos os gráficos e tabelas apresentados são do Professor Mark Perry, do excelente blog ‘CARPE DIEM’

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