Uma entrevista de Jean-Claude Carrière a propósito da morte de dois grandes cineastas, o sueco Ingmar Bergman e o italiano Michelangelo Antonioni, coincidentemente mortos no mesmo dia 30 de julho – inspira este comentário.

São desaparecimentos que acentuam os paralelismos de concepção de vida, pois tanto Bergman quanto Antonioni fizeram filmes sobre a inevitável solidão, os permanentes recomeços, a dolorosa consciência da finitude e o orgulho humano de enfrentar a morte a cada dia – seja com o amor, seja por meio de um jogo simulado, mas jogado com esperança, mesmo sabendo de antemão o resultado. Pois o Homem, como o Rei, morre; mas suas obras permanecem.

Para uma geração socializada nos filmes, tipo Die Hard, Rambo e Exterminador do Futuro, Jean-Claude Carrière é um ilustre desconhecido. Mas para quem, como eu, teve sua educação sentimental balizada pelo cinema, ele foi roteirista de um dos maiores gênios do cinema, o espanhol, Luis Buñuel (que, por sua vez, morreu – outra coincidência! – no dia 29 de julho de 1983) e, na fase final e mais produtiva de sua carreira, criaram um conjunto de filmes memoráveis, produzidos por Serge Silberman, na década de 1970.

Luis Buñuel é um dos diretores que mais admiro e, em minhas aulas sobre problemas sociais lidos pelo cinema, eu sempre tive o deleite de observar as reações dos meus alunos a filmes como O Discreto Charme da Burguesia e O Fantasma da Liberdade, ambos com roteiros feitos por Carrière.

Um dia, mostrei a uma padre paranóide Viridiana. Vocês não imaginam o prazer que tive em testemunhar, como a narrativa dissolvia aquela consciência hipócrita no drama da heroína que experimentava como boas intenções não são suficientes para mudar o mundo.

Mas a genialidade da dupla Buñuel-Carrière atinge o topo no filme O Fantasma da Liberdade, quando apresentam a vida social como uma sucessão de convenções e revelam como a consciência da relatividade (que liberta e condena) é o ponto central do absurdo humano. Essa película iluminou minha vida e ficou como uma das mais perfeitas lições sobre a relatividade das convenções sociais. Aliás, conta o folclore que Buñuel teve dúvidas quanto a trabalhar com Carrière porque, como ele mesmo disse ao produtor do filme, Serge Silberman, ‘Esse rapaz é muito inteligente, mas eu não posso continuar trabalhando com ele; ele concorda com tudo o que eu digo!’ Lição para todos nós. Sobretudo para os autoritários que precisam de uma orelha (seria a direita ou a esquerda?) especializada para ouvir discordâncias.

Mas, voltando à entrevista de Jean-Claude Carrière, nela o consagrado roteirista enfaticamente declara, e declara com aquela lucidez de sempre, que temos hoje ‘muitos filmes, mas pouco cinema’.

É o mal de um mundo fundado no desperdício. Um mundo com muita informação e pouca sabedoria; muita moda e pouca elegância; muito sexo e pouca sensualidade; muito dinheiro e pouca generosidade; muito terminal e pouca pista; muita exibição e pouco espetáculo; muito corpo e pouca alma; muita viagem e pouca jornada; muita bebida e pouco espírito; muita casa e pouco lar; muita religião e pouca fé; muitos casórios e poucos casamentos; muitas escolas e pouco ensino; muitas instalações e pouca arte; muita maluquice e pouco louco; muita ideologia e pouca revolução; muita tela e pouca pintura; muito estádio e pouco jogo; muito atleta e pouco recorde; muita novidade e pouco milagre; muito charme e pouca graça; muita politicagem e pouca política; muito livro e pouca literatura; muita teoria e pouco entendimento; muita arma e pouca paz; muito desânimo e pouca esperança; muito cacique e pouco índio; muita tarefa e pouco trabalho; muito carro e pouca rua; muita desonestidade e pouca honra; muita sujeira e pouco sabão; muita cidade e pouco urbanismo; muita missa e pouca reza; muito populismo e pouco povo; muito problema e pouca vergonha; muito crime e pouca culpa; muito juiz e pouca sentença; muito criminoso e pouca prisão; muita escuridão e pouca luz; muita palavra e pouco sentido; muito ódio e pouco amor; muita fome e pouca comida; muita dor e pouco consolo; muitos deuses e pouco sacrifício; muita areia e pouco caminhão; muito ver e pouco enxergar; muito pelado e pouco nu; muita música e pouca melodia; muita escrita e pouca literatura; muito brilho e pouca inteligência; muita confiança e pouco amor; muita légua e pouca botina; muito fantasma e pouco ancestral; muito falar e pouco fazer; muito ouvir e pouco escutar; muita sede e pouca água; muito intelectual e pouco intelecto; muita mendacidade e pouca honestidade e, como dizia Luis Buñuel: muita realidade e pouca imaginação…

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