Desrespeito internacional

Uma das implicações mais desastrosas do alinhamento do Brasil com o bolivarianismo e com o que há de mais atrasado na política do Século 21 tem sido a perda de oportunidades para se fortalecer junto aos mercados mais sólidos do mundo. Trágica, por suas consequências econômicas, a escolha desse caminho tem provocado, também, uma erosão de imagem sem precedentes na história. Dois episódios recentes ajudam a reforçar esse ponto de vista. E, para tristeza dos que gostariam que o Brasil deixasse de ser o paraíso das oportunidades perdidas, mostram que a ainda vai demorar para ter de volta o respeito e o prestígio que um dia desfrutou no cenário internacional.

O primeiro episódio foi a inércia do Itamaraty diante do acordo que reunirá 40% da economia mundial sob a Parceria Trans Pacífico. Trata-se de um bloco liderado pelos Estados Unidos e pelo Japão, que inclui outros dez países. Pode-se dizer que o Brasil só ficou fora de um acordo que garantirá vantagens comerciais a seus signatários porque não é banhado pelo Pacífico. O detalhe geográfico é irrelevante e seria facilmente contornado por uma simples mudança no nome da organização, que nasceu com um objetivo evidente: se contrapor ao poderio crescente na União Europeia e da China nas transações internacionais.

O rabo e o cachorro

O Brasil não foi chamado para a festa nem se movimentou para ser convidado. Ao insistir em se relacionar com o mundo por meio de organismos fracos e desacreditados como o Mercosul e a Unasul, deixou de ser visto como um parceiro confiável pelos principais atores internacionais. E é justamente dessa opção que vem o outro episódio que comprova a imagem de nanico no cenário mundial. Na terça-feira passada, o secretario-geral da Unasul, Ernesto Samper, ameaçou expulsar o Brasil da entidade caso prospere um eventual processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. É a velha piada do rabo que abana o cachorro.

Sem o Brasil, a Unasul ficaria reduzida à metade do que é. Mesmo assim, seu secretário-geral acha-se no direito de bater o pé e falar grosso. Ernesto Samper é ex-presidente da Colômbia. Sob seu governo, nos anos 1980, o chamado Cartel de Cali se firmou como uma das mais sólidas organizações criminosas do planeta naquele momento. Existem, inclusive, provas de que o narcotráfico financiou sua campanha à presidência, assunto tratado pela justiça colombiana no célebre Processo 8000.

Impeachment?

Samper é, portanto, autoridade em instituições que não funcionam e em governos contaminados por situações irregulares. Mas isso é outra história. O que se discute aqui é a indigência do governo brasileiro que, por falta de alternativas, precisa do apoio de gente como ele, Nicolas Maduro, Evo Morales e outros da mesma estatura. É quase certo que o impeachment de Dilma terá o mesmo destino das sucessivas tentativas do PT de tirar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do Planalto antes da hora. Ou seja, não prosperará. Mas o governo passará e o país ficará. Mas com a insistência se alinhar ao que há de mais atrasado, o Brasil encolherá. E, aos olhos do mundo, será muito menor do que era antes de 2003.

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