“There is nothing that plays worse in our culture than seeming to be the stodgy defender of old ideas, no matter how true those ideas may be”(Paul Krugman)

São tempos estranhos esses em que vivemos. Não faz muito tempo, as sociedades mais avançadas e civilizadas eram aquelas que, entre outras coisas, possuíam uma moeda forte, aceita internacionalmente. O ideal dos subdesenvolvidos, por seu turno, era fortalecer as suas moedas. Não por acaso, uma das principais funções constitucionais dos governos era zelar pela estabilidade monetária.

Mas isso é passado. Recentemente, na reunião do G-20 em Seul, assistimos a uma verdadeira pantomima de chefes de governo brigando pelo direito de desvalorizar as respectivas moedas, cada qual procurando solapar, com grande afinco, a credibilidade e o valor do próprio dinheiro. É a apoteose do velho protecionismo mercantilista, temperado com doses maciças de populismo econômico.

Nesse mundo aloprado, para usar uma expressão cara ao Presidente Lula, exportar é a única coisa que importa — ainda que saldos positivos na conta de comércio nada mais sejam do que exportação de poupança. Não por acaso, as compras feitas ao exterior são vistas exclusivamente como destruidoras dos empregos locais. “Temos que proteger os nossos produtores”, gritam a plenos pulmões os demagogos — e que se danem os consumidores. Antigas leis econômicas que sustentam a eficácia de políticas de livre comércio, baseadas em teorias amplamente aceitas, como as vantagens comparativas de David Ricardo, por exemplo, vem sendo inapelavelmente jogadas no lixo da história pelos ditos progressistas. E olha que estamos falando de teorias das quais nem mesmo o mais renomado dos economistas keynesianos, Paul Krugman, ousaria discordar. Pelo contrário, um de seus mais destacados trabalhos versou justamente sobre a validade daquela (segundo ele) complicada teoria ricardiana.

Enquanto abandonam teorias consagradas, os irresponsáveis “neo-populistas”, liderados por americanos e chineses, esperam aumentar a competitividade das respectivas economias aplicando um receituário econômico altamente duvidoso, que prescreve, entre outras extravagâncias, o avacalhamento das moedas sob seu controle. Os áulicos de Washington, por exemplo, não satisfeitos com o vasto elenco de medidas heterodoxas postas em prática desde a crise de 2008, prometem agora inundar o mundo com mais seiscentos bilhões de dólares, como se os dois trilhões emitidos até agora não bastassem. A política do Federal Reserve – com mais uma rodada daquilo que os novos ilusionistas econômicos convencionaram chamar pelo pomposo nome de “quantitative easing” – é claramente tentar obrigar o consumidor americano a consumir e os empresários a investir, embora a estratégia até agora não tenha surtido o efeito desejado.

Como bem observou o Nobel de economia Gary Becker, os bancos já estão com mais de um trilhão de dólares “estocados” que não estão sendo emprestados. Na verdade, não existe aperto monetário, o que há é escassez de tomadores mesmo. Seja por falta de confiança, incerteza quanto ao futuro ou cuidado redobrado com as próprias contas, o certo é que empresários e consumidores cada vez mais relutantes em fazer novos empréstimos. A poupança individual está em alta e as empresas sadias estão segurando novos investimentos, mesmo com as taxas de juro próximas de zero. Segundo a CNN, os bancos estão reportando uma demanda muito fraca por novos empréstimos e o quadro não irá mudar muito com esta nova enxurrada promovida pelo FED.

E as eventuais consequências imprevistas e indesejadas dessa verdadeira orgia monetária, com as “guitarras” trabalhando a pleno vapor? Bem, quem se importa com elas, não é mesmo?

O efeito inflacionário das medidas anunciadas é bem real, mesmo que o termômetro dos índices de preços ainda não consiga medir a febre. E aqui cabe um parêntese importante. Os índices de inflação utilizados na maioria dos países foram desenvolvidos numa época em que as economias, principalmente dos países do primeiro mundo, eram muito diferentes do que são hoje. Além do aumento exponencial dos índices de produtividade, devido principalmente à evolução do capital humano, da globalização acelerada e do desenvolvimento de novas tecnologias, que empurram os preços dos produtos básicos para baixo, o padrão de consumo dessas economias é muito diferente do que era.

Se, em 1950, as famílias americanas gastavam praticamente 25% da renda com alimentação e 11% com vestuário, hoje em dia essas proporções são, respectivamente, de 9,6% e 3% em média. Mesmo os gastos com aquisição de bens duráveis são hoje muito menores, proporcionalmente à renda disponível, do que eram em meados do Século XX, quando muitas das medidas de inflação utilizadas foram criadas.

Portanto, embora os índices não reflitam ainda a inflação monetária galopante dos EUA, a realidade é que ela já vem dando mostras de seu poder, criando bolhas e mais bolhas ao redor do mundo. Basta olhar, por exemplo, para os preços de algumas commodities, do ouro e das ações negociadas em bolsa, não só nos Estados Unidos, mas também nas regiões em desenvolvimento.

Definitivamente, estão brincando com fogo!

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