Deve a falência de um país ser socializada?

Esta é a questão hoje enfrentada pelas autoridades europeias e pelos contribuintes de impostos nos países da União Europeia: quem cobrirá a conta de países como a Grécia, cuja agitação social e política não sai do noticiário.

Há quinze dias, prognosticamos nesta coluna que a Europa não seria arruinada pela falência grega, nem o euro, como moeda, perderia credibilidade por esse eventual episódio.

A Europa precisa dos seus membros como pais precisam de seus filhos, mesmo que desapontadores. A Grécia não tem incentivos para deixar a comunidade, mas tampouco dispõe de meios ou vontade de pagar sua dívida integral, impagável.

O quebra-cabeça da crise se resume, grosso modo, a esta inequação, entre a evidente incapacidade da Grécia (leia-se, por extensão, outros países do “circuito da azeitona”) de pagar ou servir, integralmente, sua dívida e, por outro lado, a crescente dificuldade de se esconder a exibição dessa impossibilidade aos mercados financeiros.

No Parlamento grego se discute como implantar um plano de austeridade que salve a face do FMI e do Banco Central Europeu, para então, liberarem mais uma parcela de € 12 bilhões, do pacote inicial de socorro, de € 110 bilhões.

Os gregos precisam desse dinheiro para compromissos de rolagem até meados deste mês. Em seguida, entrarão na fila dos devedores estressados para obter outros € 100 bilhões.

Duas gerações de gregos ficarão financeiramente comprometidas, muito pior do que alguém comprar a casa própria a 30 anos de prazo com o juro errado… Os mercados, por mais desejosos de boas notícias, já descontaram a fábula grega: sabem que não podem colocar recursos bons, do setor privado, em cima de uma dívida podre e crescente em mãos dos governos credores.

Em bom português, nos mercados de swaps (Credit Default Swaps) continuarão na ponta vendedora, apostando contra o sucesso dessa não-solução, enquanto não houver um corte radical no montante efetivamente devido pelos gregos.
Mas por que não partir, então, desde logo para a reestruturação de dívidas?

Primeiro, por serem, no plural, dívidas. Se fosse apenas o problema grego, talvez resultasse mais absorvível pelo sistema bancário credor. Mas podendo e devendo espirrar para outras dívidas nacionais, aquelas conhecidas, torna-se politicamente intratável até para o Tesouro alemão.

A Europa se apressa para capitalizar um grande mecanismo de estabilidade europeia para entrar em vigor em 2013. Até lá, o tiroteio ficará mais intenso, mesmo com o atual fundo de emergência, cujo capital autorizado pulou para € 440 bilhões em junho.

Esse número, por si, dá a dimensão da trombada esperada. O segundo motivo de não envolver os credores na conta, preferindo-se a socialização branca dos prejuízos, seria o efeito dominó, entrando ali, indiretamente, os interesses americanos.

Bernanke manifestou sua recente “inquietação”, imaginem o que isso significa. Logo, quem paga? O senhor contribuinte, que protestará onde estiver votando proximamente, ou nas ruas, como em Atenas, mesmo sem saber que a conta deve ser muito mais amarga do que supõe.

Fonte: Brasil Econômico, 01/07/2011

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