Quando os jornais noticiam que a classe dirigente, os chamados ‘políticos’ que são, de fato, administradores de leis e de órgãos executivos a serviço da coletividade e não o sal da terra e muito menos aristocratas acima das leis e do bom senso, estão muito mais preocupados com suas reputações pessoais do que com os deveres implicados nos cargos que ocupam;

Quando parlamentares, juízes, ministros e até mesmo o presidente da República reclamam de Polícia Federal e, como se lê nos jornais, há a suspeita de que a própria polícia se segmenta em facções internas;

Quando deputados e senadores preferem ver o Diabo que uma CPI, esse instrumento que em todas as democracias liberais serve para apurar denúncias;

Quando se testemunha, enojado, o retorno de uma nova temporada de corrupção com o mesmo feitio das outras: tendo como base as relações pessoais, as amizades locais, os parentescos políticos partidários;

Quando o público constata que crime contra o erário rima com impunidade. De modo que, quanto maior o escândalo, mais livre e poderoso fica o sujeito;

Quando se dá conta de que o mundo público brasileiro, a esfera dos recursos do Estado (e do povo) é, há séculos, a área mais vilipendiada deste país, mas ninguém faz nada para modificar isso;

Quando se verifica que os políticos mais bem-sucedidos são aqueles cujo prestígio foi construído precisamente pelo uso e abuso da ‘casa’ (a boa e sólida casa-grande que sobreviveu à senzala entre nós) para englobar e manipular o mundo público;

Quando se assiste estupefato a uma propaganda eleitoral dita democrática, na qual os parlamentares, prefeitos e governadores aparecem abraçando, beijando e abençoando os negros, as mulheres e os pobres, num estilo absolutamente escravocrata fazer a tal de ‘política’ e de situar-se relativamente aos seus eleitores misturando carnaval com eleição;

Quando se deseja ao mesmo tempo a igualdade e a competição que elege, mas, de posse do cargo, entra-se numa clara e insofismável hierarquia de viés aristocrático, mantida por nós;

Quando saímos de casa sem saber se vamos voltar, porque as agendas da cidade são estabelecidas pelos bandidos;

Quando escolhemos como adágios o rouba, mas faz; é proibido, proibir; é ilegal, e daí?;

Quando a classe política – guardando, é claro, as honrosas exceções de sempre – vive aquela quadrinha mineira: ‘Tu fingiste que me enganaste e eu fingi que acreditei, foste tu que me enganaste ou fui eu que te enganei?’

Quando os chamados movimentos sociais’ podem cometer qualquer violência confiando que estão acima da ordem e da lei;

Quando se pensa que uma democracia é apenas clamar por direitos que se transformam em privilégios e ninguém fala nos deveres que sinalizam a igualdade;

Quando todos se comportam como se tudo fosse ‘normal’ quando, de fato, vivemos uma grave patologia coletiva relacionada ao poder à brasileira, doença que não pode ser enfrentada com gestos rotineiros, mas com uma tentativa sincera de ver com olhos lavados (como dizia Darcy Ribeiro) as suas causas;

Quando uma corrupção endêmica, estrutural – obviamente fruto de um sistema que politiza tudo, mas até hoje jamais politizou – jamais aquilatou ou avaliou os limites e as implicações do seu lado íntimo, caseiro e pessoal, mas é tratada superficialmente e não por uma crítica social profunda que contemple o nosso pendor pela hierarquia;

Quando não se enxerga que o problema da vida pública nacional não é nenhuma ausência de ética, como gostam de falar os que ‘não roubam e não deixam roubar’, mas funda-se numa ética dúplice, pois para certas coisas seguimos a lei que vale para todos, mas em outras nos valemos mesmo é da amizade e da palavra empenhada que transcende todos os princípios democráticos e, como estamos vendo nesse replay, da decência;

Quando se sabe que quanto mais leis, pior para o cidadão honesto e melhor para os criminosos, daí a necessidade de se discutir o legal em relação ao ético.

Quando se vê nos jornais que são sempre os pobres os sujeitos das obras que não saem do papel, mas vão direto para o bolso dos Gautama (que nada têm de Buda) de plantão.

Quando se sabe que há um elo direto entre onipotência estatal e roubalheira, mas se continua insistindo em resolver tudo por meio do Estado.

Quando a economia vai bem, como acontecia nos anos de chumbo, mas os governantes estão infectados pela doença da política dos cargos e pela insinceridade. Então, caros leitores, é porque deve haver algo de podre neste nosso amado Brasil.

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