Competitividade e empresas de base tecnológica

Marcos Troyjo

Julgar a competitividade brasileira em nível mundial pelas exportações é um bom parâmetro. Nossa pauta de exportações anualizada até abril de 2013 em termos de produtos tecnológicos, manufaturados, semimanufaturados e agrícolas tem sua composição exatamente idêntica àquela que o Brasil obteve em 1978.

Dez anos atrás o principal item da pauta de exportações brasileira eram os aviões da Embraer. Agora, a agregação de valor regrediu. Ficamos mais “commoditizados” em nosso perfil exportador.

Não estamos fazendo a contento a transição rumo a uma sociedade intensiva em tecnologias.

A China está fazendo esta lição-de-casa bem mais eficientemente que o Brasil. Como se dá a passagem para o novo mundo das tecnologias inovadoras? Aumentando o percentual que a sociedade e o estado direcionam para a ciência e tecnologia.

No momento em que a China ultrapassar os Estados Unidos como a maior economia do mundo daqui a 10 anos, os chineses estarão investindo entre 2% e 3% do seu PIB em pesquisa & desenvolvimento.

O Brasil como um todo investe apenas 1% de seu PIB em inovação. E se examinarmos este baixo percentual com lupa, essencialmente 80% deste montante vêm de instituições estatais.

Se o setor privado brasileiro investe pouco – esfera que possui maior capacidade de traduzir tecnologia em produtos levados ao mercado – o benefício econômico do atual investimento é muito pequeno.

Não estamos fazendo a contento a transição rumo a uma sociedade intensiva em tecnologias

E por que os empresários brasileiros não investem em tecnologia? Têm de pagar um empregado atendendo a uma das legislações trabalhistas mais medievais e antiquadas do mundo, além de sujeitar-se a uma carga tributária de 37% do PIB, enquanto seus concorrentes são submetidos a uma carga bem menor: 23% no México, 26% no Chile e 26% na Coreia do Sul.

É claro que temos pessoal e empresas no Brasil que possuem importante capital intelectual, só que esse recurso não é suficiente para a escala dos desafios. Como resolver esse problema? Importando talentos, saber e know-how para reunirem-se aos nossos. Assim, por meio de parceria internacional, será possível formar gente para atuar nessas áreas.

O Programa “Ciência sem Fronteiras” é interessante, mas a dificuldade do Brasil não é de gerar grandes cientistas, e, sim, de gerar patentes, produtos e tecnologia comercializáveis. Daí o Brasil não ter o seu próprio Instagram, seu Google, ou sua própria Apple.

Uma empresa de alta tecnologia é uma empresa intensiva em talentos tecnológicos. Mas, ao se instalar no Brasil, a empresa vai ter dificuldade de contratar pessoas e lidar com a obtusa parafernália trabalhista e fiscal.

A maneira pela qual o Brasil consegue atrair esse tipo de companhia é oferecendo aos empresários grandes contratos governamentais e a perspectiva de que o mercado interno continuará de certa forma protegido.

A barganha: só empresas que realizarem suas operações em território nacional gozam do acesso a essa proteção. Ou seja, instalam-se no Brasil não por conta da grande competitividade, da qualidade da mão-de-obra, ou do ambiente de negócios que oferecemos aqui. Estabelecem sobretudo uma plataforma de revenda da tecnologia para o próprio mercado interno brasileiro.

Fonte: O Globo, 05/06/2013

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