Ricardo Galuppo

O que não falta no Brasil são justificativas para os preços elevadíssimos das mercadorias oferecidas ao consumidor.

Então, e para que ninguém nos acuse de insensibilidade diante dos problemas que afligem nosso comércio, deixemos registrado logo nas primeiras linhas deste texto que os impostos brasileiros estão entre os mais elevados e que o sistema tributário é um dos mais complicados do mundo.

Reconheçamos também que o custo da mão de obra é alto e as condições de operação de nossas lojas – a começar pela segurança – nem sempre são as melhores.

Não há dúvida de que todos esses pontos juntos acabam puxando para cima os preços das mercadorias, que, no Brasil, são bem mais caras na comparação com os cobrados no exterior.

Também não é possível ignorar o impacto que o aquecimento do mercado brasileiro nos últimos anos teve sobre os preços.

Há muita gente com dinheiro no bolso e disposta a consumir os produtos oferecidos pelo comércio – e o aumento da procura pode ser apontado como mais um motivo para os preços altos e para a baixa qualidade dos serviços.

Reconhecidos todos esses pontos, vamos ao que interessa discutir hoje, quando se comemora o Dia Mundial do Consumidor.

Tudo isso explica uma parte dos preços elevados cobrados em nossas lojas – mas também é impossível negar que outra parte, tão significativa quanto essa, se deve a uma distorção da visão de nossos comerciantes em relação à melhor forma de ganhar dinheiro.

Em lugar de aproveitar a expansão da economia para modernizar suas operações e, assim, cativar o consumidor com serviços de boa qualidade e preços em conta, eles parecem fazer tudo o que está a seu alcance para piorar a situação.

Além dos preços injustificáveis, desrespeitam a freguesia com atrasos na entrega das mercadorias, com a venda de produtos defeituosos e com a criação de dificuldades para as reclamações.

Diante do aumento exagerado no número de queixas por atraso na entrega e por defeitos nas mercadorias, o Procon de São Paulo deu um susto em três dos maiores e mais conhecidos sites de comércio eletrônico do país: americanas.com, submarino e shoptime.

O órgão determinou, numa medida que mais tarde seria suspensa pela Justiça, a interrupção por 72 horas das atividades dos sites no estado de São Paulo.

Além disso, a empresa proprietária das lojas virtuais, a B2W, seria obrigada a pagar uma multa de R$ 1,7 milhão. Sem considerar o que poderia haver de excesso na medida (afinal de contas, organismos como o Procon e o Cade estão fartos de cometer exageros), é preciso tirar lições desse susto.

Os comerciantes de um modo geral precisam pôr na cabeça que uma das consequências do aquecimento do mercado e do aumento da renda média no país é o surgimento de um consumidor mais exigente, mas bem informado e mais exposto a outras possibilidades de aquisição de mercadorias.

Em sua edição de ontem, este jornal publicou uma reportagem de autoria de Marília Almeida em que discute as vantagens e as desvantagens de fazer compras no exterior – e a conclusão foi a de que, em muitos gêneros de produtos, o benefício é enorme.

O mercado brasileiro está crescendo, mas o comércio tiraria muito mais benefício disso se fizesse sua parte para não irritar o consumidor.

Fonte: Brasil Econômico, 15/03/2012

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