Em artigo publicado neste espaço (14/3/2010) citei textos escritos por Antonio Palocci e Paulo Bernardo, que registraram seu reconhecimento da herança positiva que o governo Lula havia recebido do governo anterior.

Segue o parágrafo que, à época, escrevi sobre os dois depoimentos: “O respeito aos fatos, claramente expresso por Bernardo e Palocci, se contasse com o respaldo das vozes mais sensatas de seu partido e do movimento lulista, representaria um avanço considerável em direção a um debate público mais sério e de melhor qualidade sobre o país e seu futuro. Um debate voltado para ‘o que fazer’ com vistas a assegurar a gradual consolidação do muito que já alcançamos como país e, principalmente, como – e com que tipo de lideranças – avançar mais, e melhor, no processo de mudança e de continuidade que nos trouxe até aqui”.

A presidente Dilma, em seu discurso de posse, também teve um momento de generosidade para com governos anteriores, algo que Lula nunca se permitiu. E escreveu bela carta pública ao presidente FHC por ocasião de seus 80 anos, exatos dois anos atrás.

Não pretendia mais voltar a este tema após estes gestos.

Mas o prematuro lançamento da campanha pela reeleição da presidente, com quase dois anos de antecedência, e, ao que tudo indica, o que vem por aí, a julgar pelas comemorações pelos “últimos dez anos”, sugerem que voltarão à tona variantes retóricas do “nunca antes na história deste país”. E, de novo, a tentativa de reescrever a história e estabelecer a data da primeira posse de Lula, em 2003, como o marco zero de uma suposta Nova Era.

A ideia de que, no mundo da política, o que importa é a versão, e não o fato, tem ampla disseminação entre nós. A aceitação dessa “máxima” tem implicações nada triviais para o debate público, em particular durante períodos eleitorais nos quais, como nas guerras, a verdade figura entre as primeiras vítimas.

Pois veja o eventual leitor: se o que realmente importa não são tanto os fatos, mas as versões sobre os mesmos, por vezes muito distintas e conflitantes,segue-se que as versões que tendem a predominar – pelo menos no prazo relevante para o calendário eleitoral – são aquelas mais constantemente repetidas, aquelas mais bem financiadas por esquemas profissionais dos departamentos de agitação, propaganda e marquetagem política.

Há quem diga que tudo isso é apenas efeito do calor da hora, expressão das vastas emoções que fazem parte natural de processos eleitorais em sociedades de massa. Para estes, passadas as eleições, e qualquer que seja o seu resultado, o país continuaria – à nossa pragmática maneira – a avançar em seus complexos processos de continuidade e mudança.

A ideia de que, no mundo da política, o que importa é a versão, e não o fato, tem ampla disseminação entre nós

A propósito, meu último artigo neste espaço (“Marcados descompassos“) termina expressando a esperança de que o país possa melhorar a qualidade do debate público informado sobre crescimento, emprego e renda, com foco na imperiosa necessidade de aumentar, em muito, a produtividade e a competitividade internacional de suas empresas e a eficiência operacional do governo na gestão da coisa pública – aí incluídos os investimentos em infraestrutura…

Pois bem, a respeito desta última área, vale reler a longa entrevista concedida a este jornal seis meses atrás (2/1/2013) pelo presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), há muitos e muitos anos o homem-chave e de confiança de nossa presidente neste campo.

Disse ele: “Se a gente pegar os planos nacionais de logística de transporte e de logística portuária e outros estudos do governo, teremos de investir perto de R$ 400 bilhões em cinco anos. Vamos dizer que tenho de investir outros R$20 bilhões para não gerar novo passivo e ser preventivo. Então a necessidade de investimento seria de R$ 100 bilhões por ano. Resolvendo isso, posso dizer que em cinco anos não teríamos mais problemas de infraestrutura”. Deixo ao leitor avaliar, com base em sua experiência, quão crível é essa última assertiva.

Perguntado como seriam os próximos passos, disse o presidente da EPL: “Vamos avaliar todos os estudos preparados até agora e quantificar qual o investimento prioritário. A ideia é levar isso para o Conselho Nacional de Integração de Políticas de Transporte (Conit), que será formado pelo governo e pela iniciativa privada. Ele vai validar quais as ações prioritárias que faltam ser adotadas. A partir da validação do Conit, a EPL vai começar a preparar os projetos para execução. Aí, mais uma vez, voltamos ao Conit, que aprova ou não. Em 2013, também vamos fazer uma ampla pesquisa em todas as rodovias, ferrovias e portos para saber tudo o que é movimentado no País.Vamos simular como a rede se comporta. E aí identificar com mais precisão as prioridades”. Deixo ao leitor avaliar quão eficaz é esse processo.

O presidente da EPL diz ainda: “A gente está fazendo 10 mil km de ferrovias, duplicando 5 mil km de rodovias, são R$ 50 bilhões para portos. O PAC tem R$ 20 bilhões para mobilidade urbana”. E defende o trem de alta velocidade: “Precisamos resolver todos os problemas e um deles é como as pessoas se deslocam no eixo Rio-São Paulo”.

Deixo ao leitor avaliar o conjunto dos três últimos parágrafos à luz de sua vivência.

A entrevista foi concedida a este jornal (“O Estado de S. Paulo”) quase seis meses atrás. Mas não se passaram somente estes meses. Passaram se 10 anos, 5 meses e 10 dias desde que um mesmo governo está no poder, como quer a propaganda eleitoral oficial.

Desde junho de 2003 tenho o exorbitante privilégio de escrever nesta página, deste excelente jornal, que teve, tem e terá papel histórico no diálogo do país consigo mesmo. A generosidade de seus editores permitiu a publicação de cerca de 100 artigos ao longo destes 10 anos.

O encorajamento de leitores me faz persistir.

Mais uma vez devem tentar estabelecer 2003 como marco zero de uma suposta Nova Era.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 09/06/2013

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1 comment

  1. Maria do Espírito Santo Gontijo Canedo

    “E, de novo, a tentativa de reescrever a história e estabelecer a data da primeira posse de Lula, em 2003, como o marco zero de uma suposta Nova Era.”

    Pois é. Depois da Revolução Francesa a necessidade simbólica de um marco zero deu na tentativa de criar um novo calendário com novos meses – entre eles o Brumário, como sabemos – e no terror total pós-revolucionário, como também sabemos.

    Eu também acho que nunca antes na História deste país a corrupção saiu do espectro do crime e se transformou em instituição. E também nunca antes na História deste país a ignorância foi elevada à categoria de ideal almejado. Um país que tem uma modalidade musical chamada “sertanejo universitário” é de se chorar lágrimas de sangue!

    Vamos lá, PSDB! Reaja antes que nossos netos se tornem adeptos do Pancadão Funqueiro Penitenciário!