Dilemas econômicos

Não tem jeito. A nossa lúgubre ciência sempre tende a se confrontar com os dilemas da vida econômica. Se a atividade cresce demais, acaba gerando demanda interna muito forte o que coloca a autoridade monetária de prontidão, dada a capacidade de resposta mais rápida do consumo em relação à produção e os investimentos. Sendo assim, o consumo “excessivo” acaba acendendo uma luz amarela nos perigos inflacionários, diante do possível desbalanceamento entre oferta e demanda.

Por outro lado, se a política monetária é adotada com a “mão muito pesada” acaba por impactar mais diretamente a produção e o consumo, com aumento de inadimplência e retração destas variáveis antes citadas, além dos impactos no mercado de trabalho. Além disto, acaba gerando maior influxo de recursos externo que, se de um lado ajudam na derrubada da inflação, por outro, acabam por tirar a competitividade das exportações.

Em outras palavras, é difícil encontrar na utilização dos instrumentos de política econômica a dosagem considerada ideal, sempre beneficiando alguns, mas prejudicando outros. Como dizem no debate econômico, “não existe almoço grátis”, para alguns ganharem outros terão que perder. É assim no dia-a-dia, é assim na vida econômica. Resta saber se, neste balanceamento entre perdas e ganhos, os beneficiários serão em maior quantidade do que os prejudicados.

No PIB deste terceiro trimestre de 2009, estes dilemas acabaram voltando à tona. O desempenho acabou mais fraco do que o esperado, o que deve tornar a política monetária menos rígida no ano que vem. Antes destes dados, a expectativa era de que um PIB mais robusto neste período resultaria numa política monetária mais cautelosa no início de 2010. Agora, com os dados divulgados, esta cautela deverá ser adiada, pelo menos para o segundo semestre do ano citado.

Na verdade, o PIB do terceiro trimestre acabou surpreendendo a maioria dos analistas, que acreditavam num crescimento mais exuberante ao fim deste ano, em função da aceleração do consumo interno, da produção e dos investimentos. Pesquisas indicam que teremos o melhor Natal em muitos anos.

Contra o trimestre anterior, a expansão foi de 1,3%, recuando 1,2% contra o mesmo trimestre do ano passado, 1,7% no ano e 1,0% no acumulado em 12 meses. Neste último, o PIB agropecuário recuou 4,0%, o industrial 7,1% e os serviços avançaram 1,9%, preservados pela boa evolução do sistema financeiro e do consumo doméstico.

Um destaque veio da boa evolução dos investimentos, avançando 6,5% contra o trimestre anterior, mesmo que acumulando no ano uma retração de 10,2% e contra o mesmo trimestre do ano passado de 6,9%, principalmente em função da fraca produção interna de máquinas e equipamentos e do desempenho negativo da construção civil, sensível à seca do crédito ocorrida ao fim do ano passado.

Observando a evolução trimestral neste ano, observamos que as quedas da indústria e dos investimentos acabaram mais baixas do que nos períodos anteriores. O PIB industrial evoluiu do primeiro trimestre para o terceiro, de -10,8%, para -8,6% e para -6,9% e os investimentos evoluíram de -14,2%, para -16% e para -12,5%. Em relação ao PIB, a taxa de investimento evoluiu para 17,7%, depois de registrar 15,7% no trimestre anterior, mas bem aquém do registrado em 2008 (20,1%) e 2007 (18,3%).

Pelo lado da demanda agregada, o consumo das famílias manteve sua trajetória de boa expansão, pelo 24º trimestre seguido, avançando 2,0% contra o anterior e 3,9% contra o mesmo do ano passado. Contribuindo para isto as boas políticas de crédito e fiscal adotadas pelo governo neste período, estimulando o segmento de bens duráveis, assim com a construção civil e bens de capital.

O PIB industrial avançou bem contra o trimestre anterior, mas o tombo contra mesmo do ano passado se deu pelo recuo forte dos canais de crédito, impactando duramente o setor de construção civil (-8,4%). Já o mergulho do setor agropecuário ocorreu em função da perda de produtividade e de produção em algumas culturas, como trigo, café, mandioca e laranja.

Por fim, o setor de serviços escapou ileso da crise, crescendo 2,1% contra o mesmo trimestre do ano passado, em função do bom desempenho do setor financeiro nacional – expansão de 6,1% -, preservado na crise pelos seus baixos índices de alavancagem.

Para o quarto trimestre, o PIB se manterá em crescimento, em função da base de comparação anual, já que no mesmo período do ano passado, com a seca do crédito, a economia brasileira e a global estancaram. Contra o terceiro trimestre, a expansão deve ficar em torno de 2%, elevada a 4,5% contra o mesmo do ano passado. Com isto, é possível um PIB neste ano próximo à estabilidade, sendo mantida a projeção de 4,8% para 2010.

Sobre a política monetária do BACEN, a reunião do Copom de dezembro veio sem grandes surpresas, deixando no ar a possibilidade de um ajuste futuro, agora adiado para o segundo semestre do ano que vem, em função da recuperação lenta da economia real. Para o ano de 2010, acreditamos na taxa de juros fechando em torno de 10%.

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