Dilma acertou em não falar no 1º de maio

Acusada — muitas vezes com justiça — de errar feio na condução política do governo, a presidente Dilma Rousseff acertou ao cancelar o tradicional pronunciamento do Dia do Trabalho. O que para muitos pareceu um gesto de covardia, serviu para tirar dos jornais do dia seguinte o panelaço que certamente se ouviria no momento em que ela abrisse a boca para falar em cadeia de rádio e televisão. Ao se esquivar das manchetes óbvias, Dilma expôs (ainda que não tenha sido essa sua intenção) o ponto que realmente interessa: a crise de projetos que, neste 1º de maio, mostrou de forma cristalina a falta de rumos não apenas do governo petista, mas de toda a política brasileira. Ausente do palco principal, Dilma optou por dividir espaço nas redes sociais com políticos que, tanto quanto ela, nada têm de concreto a apresentar.

Dilma teve o dom de demonstrar que a falta de rumos não é um privilégio de seu governo

De todos os pronunciamentos que circularam pela internet, o mais patético foi o do presidente do Senado, Renan Calheiros, em uma de suas costumeiras demonstrações de excesso de oportunismo e falta de responsabilidade. Num momento em que a situação fiscal do país chegou ao limite mínimo tolerado no mundo civilizado, Calheiros propôs alcançar o equilíbrio à custa de mais gastos públicos. A ideia do bravo senador equivale a oferecer cachaça a um alcoólatra em crise de abstinência. Pode até acalmá-lo no primeiro momento — mas certamente o levará à morte algum tempo depois.

Na mesmíssima falta direção de Renan foi o pronunciamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no palanque armado pela CUT no Centro de São Paulo. A cada dia, fica mais difícil para o brasileiro comum — que trabalha, paga impostos, tem a preocupação em manter o nome limpo na praça e sonha em subir na vida — entender onde Lula quer chegar com ameaças do tipo “mexeu com a Dilma, mexeu com muita gente nesse país”. Essa retórica já demonstrou esgotamento e, diante da realidade do desemprego em alta e da inflação galopante, é cada vez mais reduzido o número de trabalhadores sérios que estejam dispostos a defender o governo com unhas e dentes.

Quanto ao senador Aécio Neves, bem… não se pode tirar dele a razão ao dizer que Dilma mentiu na campanha e que, no governo, segue o caminho impopular que o acusou de querer trilhar nos debates do ano passado. Mas, tirando isso, o PSDB tem pouco a acrescentar de concreto a um debate em que o brasileiro comum já não tem mais no que acreditar.

O Brasil quer um novo modelo de Estado, mas ninguém tem um modelo a propor. Todos falam que existem ministérios demais, mas ninguém diz quantas nem quais pastas são necessárias para manter a máquina em movimento. Todos dizem que Brasília gasta mal o dinheiro do povo, mas ninguém separa as despesas indispensáveis das supérfluas. Todos dizem que a situação tributária exige reforma, mas ninguém se compromete com um modelo coerente de reordenamento fiscal (como, por exemplo, o defendido pelo economista Paulo Rabello de Castro, do Movimento Brasil Eficiente). Ao fugir da raia no dia 1º de maio, Dilma teve o dom de demonstrar que a falta de rumos não é um privilégio de seu governo. Em 2018 vencerá quem souber preencher esse vazio. Ponto final.

Fonte: Hoje em Dia, 03/05/2015.

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