Dilma agrega apoios

O recorde de 77% de aprovação pessoal que a presidente Dilma obteve na mais recente pesquisa de opinião do Ibope pode ser explicado por uma conjunção de apoios, pois ela mantém a hegemonia na Região Nordeste (82%) e entre os cidadãos que ganham entre um e dois salários (59%), mas conseguiu ser igualmente bem avaliada entre os eleitores com renda familiar superior a dez salários mínimos (60% de ótimo e bom) e na Região Sudeste (75%).

Isso quer dizer que a maneira de governar de Dilma tem agradado à classe média, sem perder o apoio das classes mais populares.

Embora sua aprovação seja maior entre os residentes em cidades do interior (79%) e cidades pequenas (83%), e a confiança seja menor à medida que aumenta o grau de instrução do entrevistado, segundo o Ibope, o aumento no percentual de eleitores que confiam na presidente Dilma foi proporcionalmente maior nas regiões Sul (de 65% para 72%) e Nordeste (de 73% para 79%).

O Ibope atribui ao “estilo” da presidente – que teria mostrado firmeza na substituição de ministros e resistência no relacionamento com a base aliada no Congresso – o sucesso pessoal de Dilma, que estaria sendo avaliada pela população como mais presente na administração do governo.

Essa análise provoca a dúvida sobre se a aprovação de um estilo diferente do de Lula indicaria uma tendência do eleitorado de se afastar de sua maneira populista de governar, preferindo uma presidência pelo menos aparentemente mais eficiente.

Não é o que indica a pesquisa, pois paradoxalmente, para 60%, o governo Dilma é igual ao governo Lula, e apenas 15% o consideram melhor, enquanto 23% ainda preferem o governo do ex-presidente.

A maneira de governar de Dilma tem agradado à classe média sem perder o apoio das classes mais populares.

A avaliação positiva de seu governo, no entanto, ficou estacionada em 56%, indicando um claro descolamento entre a popularidade pessoal da presidente e a avaliação de seu governo, que, segundo o Ibope, só foi bem avaliado em três de nove áreas de atuação: combate à fome e à pobreza; combate ao desemprego; e meio ambiente.

Houve um empate em educação (49% aprovam e 47% desaprovam), e, nas outras cinco áreas – impostos, saúde, segurança pública, taxa de juros e combate à inflação -, o governo é desaprovado.

O pior resultado foi em impostos, em que 65% desaprovam, e apenas 28% aprovam. A proximidade da Conferência Rio+20 e a discussão do novo código florestal no Congresso chamaram a atenção dos pesquisados, e políticas para o meio ambiente foram as que apresentaram maior crescimento na aprovação em relação à última pesquisa de dezembro, indo de 48% para 53%.

As áreas com pior avaliação foram, além dos impostos, de acordo com a pesquisa, saúde (63% de desaprovação) e segurança pública (61%).

Essa divisão de temas mostra bem que a aprovação do governo está longe de ser uma tendência consolidada, ainda mais se lembrarmos que assunto negativo como o baixo crescimento do PIB, de apenas 2,7% em 2011, foi citado por apenas 1%, ou que e a crise política só foi lembrada por 4%.

As notícias de corrupção, lembradas por apenas 5% dos pesquisados, parecem assunto superado se compararmos com os 28% registrados em dezembro do ano passado.

Essa baixa percepção da gravidade de tais questões indica uma desinformação do eleitorado que pode favorecer a avaliação sobre o governo, mas mostra também que esses problemas não atingem diretamente o cidadão em seu dia a dia.

Os assuntos políticos parecem não ser levados em conta na hora de uma avaliação, a não ser para louvar a posição firme da presidente, enquanto o baixo crescimento claramente ainda não chegou ao bolso do eleitor.

Para se ter uma ideia do grau de informação dos pesquisados, apenas 40% deles se lembraram de algum tema relacionado ao governo, e os assuntos mais lembrados espontaneamente foram os “programas sociais voltados para mulheres” e as “viagens da presidente Dilma”. A maioria (60%) não respondeu ou não se lembrou de qualquer notícia.

É bom lembrar também que a pesquisa do Ibope foi feita entre 16 e 19 de março, em meio à crise do governo com a base aliada, o que deve ter influenciado positivamente a reação dos entrevistados.

O número dos que desaprovam a presidente caiu de 21% em dezembro para 19% em março, dentro da margem de erro. A pesquisa revela ainda que 34% consideram o governo regular, 8% o acham ruim ou péssimo, e 2% não responderam.

Para 58%, o restante do governo será ótimo ou bom; 25% acham que vai ser regular; e 10%, ruim ou péssimo. O resultado geral é muito bom para a presidente, que entrou em seu segundo ano altamente popular, mas a avaliação do governo em si se mostra estável, sem perspectivas de melhora, com a maioria das áreas sendo criticada pelo eleitorado.

O descolamento da presidente do seu governo é um fenômeno que já ocorreu com o ex-presidente Lula, mas não se dava muito valor a esse distanciamento pela maneira de governar de Lula, que centralizava as expectativas em si próprio.

Já a presidente Dilma chegou ao Palácio do Planalto precedida da fama de ser uma boa gestora, e a avaliação negativa da maior parte das áreas de sua administração coloca em risco esse trunfo.

Sua popularidade está vindo de outra zona de percepção, a do rigor com que enfrenta o Congresso e se impõe como a condutora das políticas públicas.

Essa é uma postura difícil de ser mantida sem entrar em conflitos com os demais poderes, especialmente com o Legislativo.

Fonte: O Globo, 05/04/2012

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