Dilma e a crise

Em entrevista à Veja (edição 2262, 28 de março 2012), a presidente Dilma Rousseff nega que enfrenta a crise de governabilidade no Congresso Nacional e diz com especial candura: “Não gosto desse negócio de toma lá dá cá”. Talvez não saiba que o caminho mais curto para fortalecer uma crise –e ajudar a propagá-la – é negar a existência dela ou fazer de conta que ela não existe. As crises negadas se postergam por dentro, recrudecem, tornando muito mais difícil alcançar a superação.

Lula fez o mensalão. Dilma oferece um mensalinho.

Mais a mais, o momento de dizer “não gosto desse negócio de toma lá dá cá” é inoportuno, extemporâneo. Deveria ter-se preocupado com isso seja nos primórdios da campanha que a elegeu, evitando a formação desse espetaculoso arco de alianças partidárias, seja na composição do  ministério, introduzindo, na escolha de seus ministros,  critério de avaliação por mérito ao invés de dar início ao “toma lá dá cá” com os seus aliados eleitorais. A crise se estabeleceu porque seus aliados de campanha querem um “toma lá dá cá” por inteiro e ela insiste em dar apenas uma parte dele, talvez nem a metade.

Lula fez o mensalão. Dilma oferece um mensalinho. Não vai dar certo. É como se ela quisesse tapar o sol com uma peneira. A menos que não queira governar, terá de ceder.

As crises precisam ser admitidas de bate pronto e enfrentadas com realismo. O instrumento que leva à superação é o aproveitamento da energia e a criatividade de toda a equipe na procura de novos caminhos e soluções. Crise negada é crise imbatível, insuperável através do melhor instrumento disponível – a comunicação interna de qualidade com o aproveitamento da capacidade intelectual da equipe, o grande patrimônio de qualquer organização. Pelo que disse na entrevista à Veja, Dilma está na iminência de jogar a capacidade intelectual de sua equipe na lata do lixo. A menos que ela volte atrás, admita a existência da crise que passou a enfrentar, seu governo vai viver dilemas a cada semana mais difíceis.

Na mesma entrevista, Dilma fala da “legitimidade”. Diz: “As grandes crises institucionais se originaram da perda de legitimidade do governante”. Demonstra, com a frase, que não é capaz de enxergar que seu governo vive, em parte, também uma crise de legitimidade.

Cá entre nós, Dilma Rousseff foi eleita pela avassaladora onda de popularidade de seu antecessor, Luiz Ignácio Lula da Silva. Quem votou nela, votou na continuidade; não votou no imenso arco de alianças partidárias que ela montou – ou montaram em nome dela – para ganhar a eleição. As questões relacionadas à governabilidade passam ao largo da compreensão da grande massa de eleitores.

O mando e as reivindicações dos partidos aliados, sobretudo dos menores , não têm legitimidade. Talvez seja por isso que o governo Dilma lembre, até agora, um governo mutilado, feito de apenas alguns ministérios mais dinâmicos. A grande maioria dos ministérios parece inerte, protegida por um manto que os obscurece. Só ganham evidência quando o ministro é evolvido em algum malfeito.

Existe sim crise de governabilidade no governo Dilma Rousseff. Existe sim crise de legitimidade no governo Dilma Rousseff. Faria melhor, a presidente, se as admitisse e demonstrasse, com todas as letras, que sua equipe está obstinada em superá-las e terá capacidade de, nas horas decisivas, entregar os anéis para não perder os dedos.


 

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