Há uma clara razão estratégica para a presidente Dilma ter escolhido Marina Silva como a adversária a ser batida, além do fato de as pesquisas de opinião independentes mostrarem que a ex-senadora é a adversária que mais perigo lhe oferece no momento.

Não é de hoje que, paradoxalmente, os estrategistas do Palácio do Planalto identificam em Marina a adversária mais fácil de ser batida num eventual segundo turno, devido à imagem de ativista radical do meio ambiente que colocaria em perigo nosso desenvolvimento econômico. E aí está também a razão de Marina Silva ter entrado de cabeça na discussão da economia, criticando a presidente Dilma por não estar dando atenção ao tripé que apoia a economia brasileira: controle da inflação, equilíbrio fiscal e câmbio flutuante.

Defendendo junto a banqueiros as premissas básicas para uma economia saudável, dizendo-se até mesmo capaz de atos teatrais para transmitir aos investidores o comprometimento com o crescimento saudável da economia, Marina busca combater a imagem de antidesenvolvimentista que seus adversários no governo querem lhe pespegar.

Nas contas dos marqueteiros do governo, numa eventual disputa com Marina, Dilma ganharia muitos votos dos que não estão dispostos a arriscar um governo com uma ambientalista radical à frente. Há dois dias que a presidente troca farpas com a criadora da Rede Sustentabilidade, ora dizendo que seus adversários precisam estudar mais as questões brasileiras, ora garantindo que nunca se descuidou das bases econômicas.

Quando afirma que há dez anos a inflação está dentro das metas, Dilma comete o mesmo erro de sempre: tenta enganar os interlocutores com frases de efeito que não refletem a realidade

Mas, quando afirma que há dez anos a inflação está dentro das metas, a presidente Dilma comete o mesmo erro de sempre: tenta enganar os interlocutores com frases de efeito que não refletem a realidade. A frase mostra ao mesmo tempo as fragilidades da orientação econômica em vigor.

Se a própria presidente considera “estar dentro das metas” uma inflação que flerta com o seu limite máximo, mostra-se leniente com uma inflação mais alta. E passa a ideia de que o governo trabalha com o teto da meta como sendo a inflação aceitável, o que provoca uma reação direta dos agentes econômicos em direção a uma inflação de 6,5%, e não dois pontos abaixo, que deveria ser a inflação a ser alcançada.

Além do mais, há oito anos que a meta de inflação é a mesma, de 4,5%, o que indica que o governo está deixando de reajustar para baixo a meta por necessitar trabalhar com uma inflação mais alta.

A alegação de que a inflação atual é mais baixa do que a média histórica dos últimos anos, incluindo os governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula, pode render bons gráficos a serem mostrados na campanha eleitoral, mas só serve para confirmar aos investidores que o governo tergiversa pa; ra tentar justificar a falta de empenho no controle da inflação.

Comparar períodos históricos distintos, esquecendo que o Plano Real teve que domar uma hiperinflação em meio a graves turbulências econômicas internacionais, é querer sair pela tangente na discussão.

Mesmo o governo Lula teve de lidar com um problema que não afetou Dilma: o temor de sua eleição fez subir a inflação, contabilizada pelo Lulômetro da Goldman Sachs, que revelava a preocupação dos investidores internacionais com a incógnita Lula. Com Palocci à frente da economia, o governo Lula teve que fazer das tripas coração para derrubar a inflação e conquistar a confiança dos investidores, o que afinal conseguiu.

É por isso que os novos adversários da presidente Dilma, Eduardo Campos e Marina Silva, afinaram o discurso na direção de uma política econômica amigável aos investidores. Dilma sabe que tanto Campos quanto o senador Aécio Neves, candidato mais provável dos tucanos, são adversários mais perigosos do que Marina Silva, ambos com experiências bem-sucedidas em governos estaduais. O primeiro por ter uma estrutura partidária mais forte, bem instalada nos dois principais colégios eleitorais do país (São Paulo e Minas), e ser o principal candidato oposicionista, pela história do PSDB.

Já Eduardo Campos pode ter em Marina a força política que Lula representa para Dilma. Se conseguir transferir seu prestígio para Campos, Marina pode ser decisiva nesta eleição. Sem falar que os dois podem tirar votos dos eleitores tradicionais do governismo.

Por isso, Dilma escolheu Marina para debater.

Fonte: O Globo, 16/10/2013

RELACIONADOS

Deixe um comentário