Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
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Dilma nos Estados Unidos

O principal resultado da visita da presidente Dilma a Washington foi a restauração da normalidade governamental na relação entre Brasil e EUA.

Do ponto de vista do governo Dilma, a viagem pode ser considerada um êxito relativo. Houve avanços concretos com a assinatura de acordo de previdência social, comércio (promessa de importação e exportação de carne, convergência regulatória e facilitação de comércio), concessão limitada de vistos para empresários e meio ambiente, única decisão com alguma repercussão internacional, apesar de tímida. Defesa transformou-se em prioridade para Washington em virtude da ratificação, pelo Congresso, depois de cinco anos, do Acordo de Cooperação e o de troca de informações militares (Gsomia).

A visita, contudo, não representou uma mudança na política externa brasileira, até porque, na retórica governamental, nunca as relações entre os dois países estiveram tão boas.

A viagem pode ser considerada um êxito relativo

Nos governos do PT, Brasil e EUA foram pautados por declarações oficiais de interesse recíproco, mas de gradual afastamento na prática. Pode-se indagar por que o presidente Obama, em um dos momentos de maior sucesso em seu governo, resolveu dar um tratamento diferenciado à presidente Dilma, num momento delicado de seu governo pela confluência das crises econômica, política e ética. A resposta parece simples: o governo americano sabe o que quer do Brasil a médio e a longo prazo. E, para tanto, visou à ampliação das bases do relacionamento futuro, independentemente do governo da vez. Como transparece no comunicado conjunto, o governo brasileiro foi reativo na maioria das trinta áreas mencionadas e, em muitos casos, aceitou a agenda de Washington, por, na verdade, não saber o que quer dos EUA.

As declarações de que o relacionamento bilateral daqui para frente não sofrerá com preconceitos ideológicos foram matizadas ainda durante a visita presidencial pela não inclusão de referência à retomada dos entendimentos relacionados com o acordo de salvaguardas tecnológicas (AST). Esse acordo poderá viabilizar o programa espacial e a utilização comercial da base de Alcântara. Mencionado no comunicado Dilma-Obama de março de 2011, o acordo teve o apoio formal dos presidentes de grandes empresas (CEO Forum) e do grupo de empresas de Defesa, reunidos com a contraparte norte-americana antes da visita oficial. O AST é, sem dúvida, o principal acordo de interesse do governo e setor privado brasileiros na área da Defesa e da Ciência e Tecnologia, mas não foi considerado prioritário para ser incluído nas conversas presidenciais. A única explicação possível é a restrição ideológica do Partido dos Trabalhadores, responsável pelo cancelamento do mesmo acordo, negociado em 2000, e que determinou o atraso do programa espacial nos governos comandados pelo PT.

No momento em que, segundo o ministro Mauro Vieira, a única ideologia do Itamaraty é a defesa do interesse nacional, deixar de lado restrições partidárias para colocar o Brasil em primeiro lugar, seria dar conteúdo concreto a essa afirmação.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 14/7/2015

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