Dilma, Obama, Castro e a saída da crise

ricardo galuppo - nova

Não existe argumento capaz de negar que a causa da insatisfação contra a presidente Dilma Rousseff deve ser procurada no próprio governo — sobretudo nas medidas impopulares e contrárias a tudo o que ela prometeu na campanha eleitoral do ano passado. Está aí, nessa explicação singela, a razão da presença de cada vez mais pessoas nas manifestações contra o governo. Para piorar, Brasília tem demonstrado a incrível capacidade de se apegar ao erro até mesmo em questões que poderiam trazer algum alívio e retocar a imagem arranhada da presidente. Quer um exemplo? Se não tivesse errado tanto na política internacional ao longo dos últimos 12 anos, o Brasil poderia ter aproveitado a 7ª Cúpula das Américas — que se encerra hoje, na Cidade do Panamá — para afirmar sua liderança na América Latina. Como preferiu ser satélite ideológico de países como Cuba e Venezuela, teve a imagem ofuscada por eles.

Não existe argumento capaz de negar que a causa da insatisfação contra a presidente Dilma Rousseff deve ser procurada no próprio governo

Numa reunião recente do Conselho Político de Dilma Rousseff (sim! Dilma tem um grupo de conselheiros políticos), o ministro da Ciência e Tecnologia Aldo Rebelo sugeriu a reaproximação com os Estados Unidos, cuja economia em crescimento pode ajudar o Brasil a sair da crise. Parece sensato, não? Não foi o que achou o secretário geral da Presidência, Miguel Rossetto. Ele se mostrou contrário a qualquer aceno enquanto os Estados Unidos continuarem a ser uma “ameaça” à Venezuela. Pode uma coisa dessas? O Brasil passa por dificuldade e a retomada dos negócios com os Estados Unidos pode salvar milhares de empregos. Mas, para Rossetto, o importante é se curvar às estultices bolivarianas da Venezuela.

Felizmente, a diplomacia (que não foi completamente aniquilada pela influência dessa nulidade chamada Marco Aurélio Garcia sobre o Itamaraty) falou mais alto, o Brasil resolveu se mexer e buscar uma reaproximação com a maior economia do mundo. Em junho ou julho, Dilma deve embarcar para os Estados Unidos, onde não será recebida com a mesma deferência que seria na visita prevista para outubro de 2013. A viagem foi cancelada pelo governo brasileiro, melindrado pelas denúncias de que os Estados Unidos andavam xeretando e-mails do Planalto. A Alemanha, que também teria sido bisbilhotada, aproveitou a oportunidade para arrancar vantagens econômicas no relacionamento bilateral. O Brasil preferiu fazer muxoxo e perdeu uma oportunidade de eliminar barreiras entre os dois países.

Na cabeça de gente como Rossetto e Garcia, o Brasil pode viver de costas para os Estados Unidos. A consequência dessa visão é trágica. No Panamá, o Brasil ficou na plateia do espetáculo principal protagonizado por Raul Castro e Barak Obama: a reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos. Poderia estar no palco, como o grande avalista desse momento histórico. Não deixa de ser irônico. O Brasil, que financia a ditadura de Castro por meio do programa Mais Médicos, se viu excluído da festa que resultará, no final das contas, em investimentos americanos em Cuba. E depois o governo não sabe por que tanta gente sai às ruas para protestar. Que triste!

Fonte: Hoje em dia, 12/4/2015

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